Juros altos aprofundam a desigualdade social no Brasil
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- Enquanto o custo médio da dívida pública segue crescendo, parte da população continua sem acesso a serviços públicos básicos e a concentração de renda aumenta., adverte o economista Luís Eduardo Assis.
- . “Deveríamos ter ojeriza a juros altos, mas apenas não gostamos. E algumas pessoas gostam muito. Juros altos concentram riqueza, e o seu impacto sobre a distribuição de renda é absolutamente fulminante. É essa sociedade que nós queremos?", questiona.
- Qualquer que seja o próximo governo, Assis acredita que o espaço para mudanças na política fiscal será muito reduzido. O problema, explica, é o custo da inação. “Se [o presidente] não fizer nada, o dólar poderá explodir, e aí vem a inflação e pega no assunto que bate no cidadão. Esse é o grande risco”, adverte.
Ao longo de 2025, o Brasil gastou cerca de R$ 1 trilhão com os juros da dívida pública, que, hoje, já equivale a quase 82% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com dados do Tesouro Nacional.
Enquanto o custo médio da dívida pública segue crescendo, parte da população continua sem acesso a serviços públicos básicos e a concentração de renda aumenta. É o que adverte o economista Luís Eduardo Assis, presidente da Fator Seguradora e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central (BC).
Em entrevista ao Canal UM BRASIL — uma realização da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) —, Assis fala sobre os impactos dos juros altos e da inflação para a economia e a sociedade, além dos caminhos para o ajuste fiscal no País.
O custo social dos juros altos
- A conjuntura reforça desigualdades. O economista questiona as escolhas da atual política econômica. “Deveríamos ter ojeriza a juros altos, mas apenas não gostamos. E algumas pessoas gostam muito”, afirma. De acordo com Assis, isso acontece porque a despesa com os juros da dívida é “distribuída” na exata proporção da riqueza financeira preexistente — ou seja, quem tem mais enriquece mais. “Se os juros são de 10%, quem tem R$ 100 ganha R$ 10; quem tem R$ 1 bilhão ganha R$ 100 milhões”, explica.
- E a riqueza fica mais concentrada. O resultado, alerta o economista, é uma nação cada vez mais desigual, dividida entre os muito ricos, cada dia mais ricos, e uma vasta massa da população deixada para trás. “Juros altos concentram riqueza, e o seu impacto sobre a distribuição de renda é absolutamente fulminante. É essa sociedade que nós queremos?”, questiona.
Desindexação pode ajudar?
- Por trás dos juros altos. O Brasil já avançou na desindexação da economia, em outras palavras é, na redução de mecanismos automáticos de reajuste de preços baseados em índices passados de inflação. Mas esse processo ainda não está completo. A consequência é uma política monetária de baixa potência. “É por isso que é preciso ter juros de 14% para tentar fazer com que a inflação caia um pouquinho”, explica Assis.
- Fora do debate público. “Se déssemos o último passo na desindexação, isso aumentaria o poder da política monetária. Seria um passo extremamente importante”, afirma. No entanto, o economista é cético quanto ao avanço da agenda. “Isso vai acontecer? Duvido. Não está sequer no debate, não está sendo colocado”, avalia.
As escolhas difíceis do ajuste fiscal
- Discussão não avança. O reajuste real do salário mínimo e sua vinculação às aposentadorias e aos benefícios sociais têm reflexo direto no déficit público. No entanto, essas pautas passaram a ser tratadas como “politicamente intocáveis”. “Serão discutidas durante a campanha eleitoral? Se forem, será no sentido de negar algum tipo de mudança”, avalia.
- Pouco espaço para fazer diferente. Assis acredita que o aumento real do salário mínimo, por exemplo, se transformou numa questão extremamente relevante para o eleitor. “E as pessoas esperam que continue assim”, complementa. Já a vinculação do salário mínimo às aposentadorias — ou, neste caso, uma eventual desvinculação — poderia gerar uma “situação insustentável do ponto de vista político”, conclui.
- Pauta não mobiliza votos. Qualquer que seja o próximo governo, o espaço para mudanças na política fiscal será muito reduzido, acredita o economista. “O ajuste fiscal não está na preocupação do eleitor, não está nas pesquisas. Entre as cinco ou dez maiores preocupações, esse tema ou aparece em último ou nem sequer aparece”, avalia.
- O peso da paralisia. Assis ainda ressalta que também faltam vontade e organização política para viabilizar a agenda. O problema disso tudo, explica, é o custo da inação. “Se [o presidente] não fizer nada, o dólar poderá explodir, e aí vem a inflação e pega no assunto que bate no cidadão. Esse é o grande risco”, adverte.
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