Relações comerciais brasileiras não devem ser guiadas por questões ideológicas
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O que você vai encontrar nesta entrevista?
- O professor Lucas de Souza defende que tradição diplomática deixa o País em posição vantajosa em meio à escalada das tensões comerciais no mundo.
- “O Brasil tem o poder de conseguir sentar com Estados Unidos e China, e negociar de acordo com os interesses nacionais. Mas se escolher apenas um lado, por uma questão ideológica, perderá a possibilidade de gerar riqueza e benefício próprio”, afirma.
- Na visão de Souza, mesmo com o “tarifaço”, não é hora de botar tudo a perder. “Temos outros instrumentos para contrabalancear questões tarifárias impostas hoje. Construímos uma carta de opções graças às boas relações com todos", finaliza.
Ao longo das décadas, o Brasil construiu uma tradição diplomática pautada pelo diálogo com diferentes nações e pela diversificação de suas relações comerciais. Essa é uma característica que coloca o País em posição vantajosa em meio à escalada das tensões comerciais em todo o mundo.
A opinião é do professor Lucas de Souza, doutorando em História Diplomática pela Temple University. Em entrevista ao Canal UM BRASIL — uma realização da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) —, ele afirma que abrir mão dessa tradição em nome de preferências ideológicas é um erro que o País não pode cometer.
“O Brasil tem o poder de conseguir sentar com os Estados Unidos e com a China e negociar de acordo com os interesses nacionais”, afirma. “Mas se escolher apenas um lado, se optar pelo adesismo a uma só nação, simplesmente por uma questão ideológica, por uma visão de mundo, ou por alguns valores, perderá a possibilidade de gerar riqueza e benefício próprio”, completa.
Vantagens da tradição diplomática brasileira
- Poder de barganha. Em meio ao imbróglio das tarifas comerciais impostas pelo governo Donald Trump sobre os produtos brasileiros, o País entra no jogo com uma vantagem histórica: o poder de barganha, construído ao longo dos anos graças às positivas tradições diplomática e comercial, explica Souza.
- Construção histórica. “Independentemente se estava em um regime democrático ou não, se estava em regime de exceção ou não, o Brasil sempre teve a característica de se posicionar como um ator que conseguiu mediar conflitos, participar de diálogos e ampliar a possibilidade de escoar a sua produção e o seu comércio exterior. E isso é um ponto positivo do Brasil”, afirma.
- É hora de pragmatismo. Na visão de Souza, mesmo com o “tarifaço”, não é hora de botar tudo a perder. “Até o início dos anos 2010, o principal parceiro comercial do Brasil eram os Estados Unidos. Por isso, a ideia que se constrói de um adesismo a um antiamericanismo puro e simples não funciona”, defende. “Temos outros instrumentos para contrabalancear questões tarifárias impostas hoje. Construímos uma carta de opções graças às boas relações com todos.”
Outras reflexões sobre o vizinho norte-americano
- Democracia sólida. Ao UM BRASIL, Souza também tece comparações entre as políticas estadunidense e brasileira. Enquanto o País sai na frente sob o ponto de vista diplomático, os Estados Unidos têm como vantagem a solidez institucional. Souza lembra que, apesar de a invasão do Capitólio, Washington D.C., em 2021, ter marcado uma transição traumática de poder no país, a democracia saiu mais consolidada do que se poderia imaginar.
- Instituições resistentes à ruptura. “Por mais que tenha contestado o resultado da eleição, o presidente Donald Trump saiu do poder e deu espaço para que a oposição assumisse legitimamente”, afirma. “Ele concorre mais uma vez à eleição e vence. Em outras palavras, ele usa dos elementos institucionais para pleitear e voltar ao poder. Isso mostra a consolidação das instituições americanas, apesar de qualquer tentativa ou rumor de ruptura que possa existir.”
- ‘Midterms’ reforçam o controle social. Souza também lembra que os Estados Unidos, diferentemente do Brasil, renovam toda a Câmara dos Representantes e parte do Senado a cada dois anos. Para o professor, o calendário eleitoral funciona como um mecanismo de resposta popular ao governo. “O povo tem a oportunidade de, a cada dois anos, se posicionar dentro da composição do Capitólio, até como forma de reagir àquilo que acontece com a Casa Branca”, explica.
- Termômetro político. Como resultado, as chamadas midterms ajudam a traduzir as sensações do eleitorado. Se a avaliação do governo é positiva, o cidadão confirma essa visão elegendo mais deputados aliados da Casa Branca. “Agora, se há uma reação negativa, é ali que o povo se manifesta contra o governo, colocando mais opositores no Capitólio, que vão gerar mais dificuldades e mais contestação às políticas que sairão da Casa Branca”, conclui Souza.
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