Por que a renda cresce, mas não chega ao bolso dos brasileiros?
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O que você vai encontrar nesta entrevista?
- De acordo com ele, três motivos explicam por quê, para as classes mais baixas, a renda que chega ao bolso caiu nos últimos anos: impostos, dívidas e bets, explica o economista Ricardo Amorim.
- Há seis anos consecutivos, a economia brasileira cresce mais do que os economistas projetam. A razão, de acordo com Amorim, é a “entrada gigantesca” de investimento externo direto. Mas esse crescimento não é mérito do Brasil, mas reflexo de instabilidades em outros países.
- Sobre o futuro, Amorim propõe olharmos para o Brasil como um continente, e não como país. Para o economista, um dos pontos principais para explorar o potencial de crescimento desse país continental é entender que não é possível agregar valor a uma riqueza que está debaixo da terra enquanto não sair de lá.
A renda nominal, ou real, está crescendo no Brasil — mesmo descontada a inflação. Mas a renda bruta, à qual a população tem acesso, não. É o que explica o economista, palestrante e CEO da Ricam Consultoria, Ricardo Amorim.
De acordo com ele, três motivos explicam por quê, para as classes mais baixas, a renda que chega ao bolso caiu nos últimos anos. “O número um das ‘mordidas’ na renda bruta é o imposto, que subiu de forma significativa. Número dois, custo financeiro. O brasileiro está mais endividado do que nunca”, explica.
Há, ainda, um terceiro motivo. O que o imposto e o custo financeiro não afetaram, as bets comeram. “A última estimativa aponta que, no ano passado, a diferença entre o que as pessoas apostaram e o que ganharam ou não chegou a R$ 62,5 bilhões”, explica.
Amorim faz referência ao valor líquido perdido pelas famílias brasileiras com plataformas de apostas — o dado consta no Boletim Fiscal dos Estados, do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz).
Em entrevista ao Canal UM BRASIL — uma realização da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) —, o economista analisa o passado, o presente e os possíveis caminhos futuros da economia brasileira.
A crise que mudou o Brasil
- Década perdida. Apesar das longas crises, os anos 1980 acabaram provocando importantes transformações para o País, como parte das consequências da crise do petróleo que aconteceu no período, explica Amorim. E é revisitando esse passado que o economista sugere que deveríamos discutir como a atual crise do petróleo também pode gerar novas oportunidades de inovação.
- Origem da Embrapa. “Tivemos duas mudanças fundamentais no Brasil por causa dessas crises. O ano de 1973 também foi, não por acaso, da criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária [Embrapa], que desenvolveu as sementes que, por sua vez, permitiram que a gente tivesse produção no Cerrado. De lá para cá, o Brasil foi de importador de alimentos ao maior exportador mundial de alimentos do mundo, se ultrapassarmos os Estados Unidos neste ano”, explica Amorim.
- Alternativa energética. O economista lembra também que, em 1975, foi criado o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), que permitiu que passássemos a depender menos da importação do petróleo. “Somado a todo o petróleo encontrado no pré-sal, isso fez com que o Brasil também passasse de importador para um dos maiores exportadores de petróleo do mundo. Isso tudo foi consequência de medidas tomadas em resposta à crise mundial do petróleo”, completa.
O Brasil promissor em um mundo instável
- ‘Ganhar de W.O.’. Há seis anos consecutivos, a economia brasileira cresce mais do que os economistas projetam, de acordo com as expectativas de crescimento econômico pelo relatório Focus. A razão, de acordo com Amorim, é a “entrada gigantesca” de investimento externo direto. “O Brasil tem oscilado entre o segundo e o terceiro maior receptor de investimento estrangeiro nos últimos anos, que é função do que eu chamo de ‘ganhar de W.O.’”, completa.
- Reflexos das instabilidades externas. “O que está acontecendo não é fruto dos nossos méritos. O problema dos outros ficou maior que o nosso, particularmente em países com características parecidas com as brasileiras”, pontua. Com a Rússia em guerra e a China e os Estados Unidos enfrentando um gigantesco imbróglio comercial, “sobrou” para o Brasil.
- O caminho dos investidores. “Em maio do ano passado [2025], houve uma guerra entre Índia e Paquistão, que durou pouco tempo. Isso fez com que os investidores passassem a pensar: ‘Olho para o Brasil, não gosto do que vejo; olho para fora, gosto menos ainda. Vamos para o Brasil.’”, conclui Amorim.
- O ‘voo de pipa’ do Brasil. O economista opina que o problema em crescer dessa forma é que o País fica dependente do cenário externo, já que não criou condições próprias. Essa é, na verdade, toda a história brasileira e da América Latina: “Períodos alternados, como o atual, de surpresas positivas de crescimento, seguidos de períodos de surpresas negativas”, explica. É o que Amorim chama de “voo de pipa”. “A galinha voa pouco, mas é com a própria asa. A pipa voa enquanto o vento está ajudando. Parou de ventar, não tem jeito, a pipa vem para baixo”, compara.
Falta estratégia para explorar os ‘Brasis’
- O continente Brasil. Sobre o futuro, Amorim propõe olharmos para o Brasil como um continente, e não como país. “Ele não é o único. A China é um continente, os Estados Unidos, o Canadá, a Rússia e a Austrália. E acabou. O resto são países”, afirma. “O que quero dizer é que cada Estado brasileiro — tanto do ponto de vista de características regionais, quanto do ponto de vista de características econômicas — parece mais com um país europeu do que propriamente com um Estado. Há muitos Brasis no Brasil que nós estamos”, afirma.
- O futuro das terras raras. Para o economista, um dos pontos principais para explorar o potencial de crescimento desse país continental é entender que não é possível agregar valor a uma riqueza que está debaixo da terra enquanto não sair de lá. “As terras raras não vão melhorar a vida de ninguém se não formos capazes de extraí-las em primeiro lugar”, afirma. O receio do economista é que se perca muito tempo discutindo marcos e regulações — como, segundo ele, aconteceu com o petróleo.
- Agregar valor ao ouro negro. Sobre o petróleo, Amorim acredita que um plano para uma expansão robusta da capacidade de refino ao longo dos próximos anos também deveria estar na pauta. “Não estamos fazendo uma discussão tão séria quanto deveríamos fazer agora. O Brasil é, hoje, o sétimo maior exportador mundial de petróleo. Só que, como em quase tudo, exportamos petróleo bruto e importamos derivados, gasolina e óleo diesel. Falta capacidade de refino aqui”, afirma.
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