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Economia e Negócios

Sem incentivo à economia da preservação, Amazônia fica à mercê da tomada de terra e do crime organizado

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Vinícius Mendes Entrevistador(a)
Publicado em: 7 de junho de 2024

ENTREVISTADOS

Se desenvolvesse uma visão mais estratégica para reduzir as emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE), conforme as promessas e os compromissos firmados no Acordo de Paris (NDCs), o Brasil conseguiria fortalecer os setores da economia que mais impactam a agenda climática global: o de Energia; os de Transportes de carga e materiais pesados; e a Agropecuária, que vêm emitindo cada vez mais carbono e avançando sobre as florestas e outras áreas de vegetação.

Segundo Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, felizmente, é possível se reduzir a emissão não apenas desenvolvendo o País, mas tirando vantagens econômicas e produtivas disso. “O perfil de emissões do Brasil, a nossa capacidade de atuar sobre isso e os nossos recursos naturais fazem com que ‘clima’ seja uma oportunidade de desenvolvimento econômico”, afirma.

“Nós temos uma grande possibilidade de liderar pelo exemplo. Apresentar uma NDC robusta — e antes dos outros países — põe o Brasil nessa posição. O que temos de valor é o que a Nação pode oferecer de soluções, mas precisamos levar isso muito a sério. Se quisermos realmente ser líderes da pauta climática, precisamos incorporar a questão em todo o programa de desenvolvimento. Dispomos de tecnologia para isso, mas é importante que os programas pensados aqui, como o PAC, considerem essa agenda”, pondera.

Nesse sentido, Astrini reforça, o Brasil poderia se comprometer a não mais explorar petróleo na Amazônia ou a não criar projetos de exploração em áreas sensíveis. “O País precisa ter uma postura de liderança também nesse debate sobre combustíveis fósseis”, enfatiza.

Ainda de acordo com ele, a grande meta nacional de reduzir as emissões de GEEs em 43% até 2030, é factível, mas pequena. “O Brasil atingiria esse objetivo somente acabando com o desmatamento ilegal ocorrido na Amazônia. Podemos conseguir muito mais se formos mais ambiciosos nas áreas de Energia e Agropecuária. Seria possível quase que dobrar essa meta, chegando a mais de 80% de redução”, frisa. “Enquanto o mundo debate ser neutro na emissão de carbono em 2050, o Brasil tem a possibilidade de ser carbono negativo antes de 2045. Quando olhamos para um planeta em crise climática, isso nos coloca em uma posição de solução extremamente privilegiada — diria que única no mundo.”

Sem estratégia nacional, a tomada de terra na Amazônia impera

Na entrevista, Astrini também sinaliza que, sem um plano nacional para definir claramente as áreas de desenvolvimento local e as de proteção da Amazônia legal, o que ganha força é o caos fundiário na tomada de terras em várias regiões.

Conforme o especialista explica, a área Administrativa da Amazônia é de cerca de metade do território nacional, porém não há um plano que permita situar indústrias ou definir onde haverá mais regularização ou maior proteção. Além disso, os custos dos investimentos logísticos para incentivar a Indústria, o Comércio e os Serviços, ou uma economia local, são incertos. “Nós não temos isso, é espantoso. Os governos vão e vêm, e a discussão recai somente sobre o que não se pode fazer e onde não pode ocorrer desmatamento, mas não se discute o que pode ser realizado de forma coordenada, ou o incentivo à instalação de alguma indústria que gere empregos. Dessa forma, a tomada de terra da Amazônia simplesmente vai acontecendo, com a grilagem, com quem chegar primeiro e com o próprio Estado regularizando aquele que roubou a terra pública”, adverte Astrini.

Ao mesmo tempo, sem um programa de incentivo para a recuperação de terras perdidas, cria-se uma situação na qual é muito mais barato abandonar uma área que perdeu a capacidade produtiva e desmatar uma nova do que recuperar a antiga. “É um caos fundiário sem ordenamentos econômico, jurídico e de segurança para as pessoas, tampouco de geração de empregos”, complementa.

Planejamento para a economia da floresta viva

Sem um plano robusto de organização, o País também luta contra o crime organizado que lucra com a derrubada da floresta. A sociedade, em si, por outro lado, pouco lucra com sua manutenção. “Estamos sempre correndo atrás do motivador econômico da destruição, mas sem incentivar quem gera dinheiro com a preservação. O Brasil precisa de um plano de investimento para uma economia da floresta viva, inibindo o desmatamento e a destruição”, acrescenta. “Como não o temos, a floresta fica à mercê dos crimes florestal, de tomada da terra ou organizado — o qual chegou com força na Amazônia.”

Além disso, há mais um enorme risco em razão da destruição: a Amazônia regula as chuvas distribuídas pelo País, importantes para os reservatórios das hidrelétricas, que geram grande quantidade da energia consumida, e para o Agronegócio. “Acabar com o desmatamento ilegal não se trata apenas de cumprir a meta do clima, pois a floresta viva é um regulador climático para a nossa economia”, conclui.

A entrevista foi promovida em parceria entre a Revista Problemas Brasileiros (PB) e o Canal UM BRASIL, ambas realizações da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP)

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