O futuro do mundo do trabalho já chegou. O Brasil está preparado?
* Cacau Lopes da Silva, gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Implementação do Itaú Educação e Trabalho, e Vivianne Naigeborin, superintendente da Fundação Arymax
O mundo do trabalho está sendo redesenhado por transformações simultâneas e aceleradas. O avanço das tecnologias digitais e as mudanças climáticas já impactam a forma como se produz, se trabalha e se qualificam profissionais, exigindo novas competências em um ritmo cada vez mais intenso.
Os números ajudam a dimensionar esse desafio: até 2030, 29% dos trabalhadores no mundo deverão se qualificar para acompanhar as mudanças em seus próprios empregos, enquanto 19% terão que se requalificar para ocupar novos postos de trabalho. No Brasil, 37% das habilidades-chave das ocupações devem mudar até 2030, o que demandará um significativo esforço de requalificação profissional. Somente na indústria, por exemplo, estima-se que 11,8 milhões de pessoas precisarão se atualizar para acompanhar as transformações. Se considerarmos a economia verde, o país pode criar 1 milhão de empregos por ano em diversos setores até 2050, exigindo novas competências e se refletindo na retração de postos em setores poluidores. Trata-se de uma reconfiguração em larga escala, com impactos diretos sobre produtividade, renda e inclusão.
No contexto brasileiro, essas transformações encontram uma economia ainda marcada por desigualdades e uma parcela significativa da população muito distante das oportunidades de qualificação profissional.
Esse cenário se torna ainda mais desafiador diante de uma mudança em curso: o rápido envelhecimento da população. Em menos de 14 anos (em 2040), o país terá um a cada três brasileiros fora da faixa etária economicamente ativa, encerrando o bônus demográfico e aumentando a pressão sobre a população em idade de trabalhar. A pergunta que devemos fazer agora é: o Brasil está preparado para o envelhecimento da sua população e para o novo mundo do trabalho?
Neste cenário, a produtividade e a trajetória profissional dos jovens de hoje passam a ser determinantes para um futuro que já está à nossa porta e, muito em breve, irá cobrar seu preço.
Não é mais possível pensar apenas em trajetórias lineares para as juventudes, como estudar, se formar e trabalhar na mesma área por décadas. A formação passa a ser contínua, mais curta, mais flexível e cada vez mais conectada à realidade produtiva.
É nesse contexto que o estudo “(Re)Qualificação das juventudes para um mundo em transformação, do Itaú Educação e Trabalho e da Fundação Arymax, elaborado pelo Instituto Veredas, acende um alerta: uma parcela significativa da juventude brasileira ainda está distante dessas oportunidades de qualificação e de requalificação profissional que permita aos jovens traçar e construir seus caminhos profissionais em um mundo em transformação.
Hoje, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, cerca de 24,9 milhões de jovens entre 15 e 29 anos estão fora da escola ou não avançaram para o ensino superior, mais da metade do total dessa população. Muitos deles já trabalham e têm responsabilidades familiares. Por isso, é preciso avançar no debate sobre qualificação profissional.
Programas eficazes são aqueles que colocam os diferentes perfis de jovens no centro da formulação e reconhecem que os mesmos não são “folhas em branco”. Eles já acumulam experiências, muitas vezes informais, e enfrentam barreiras concretas para acessar e permanecer em formações. Reconhecer e valorizar competências e aprendizagens desenvolvidas, oferecer flexibilidade de horários, reduzir custos e integrar a qualificação a outras políticas, como a Educação de Jovens e Adultos (EJA), são condições essenciais para que essas iniciativas alcancem quem mais precisa. Sem esse redesenho, a qualificação continua sendo uma oportunidade para poucos.
Dentre as recomendações apontadas pelo estudo, está a necessidade de organizar melhor a oferta de cursos, hoje ainda fragmentada. Muitos jovens acumulam cursos curtos que não se conectam entre si e não geram progressão real. Mais do que formar, é preciso apresentar trilhas que permitam ao jovem avançar ao longo do tempo.
Outro ponto crítico é a desconexão entre formação e oportunidades reais. Quando cursos não dialogam com a economia local ou com setores promissores, o resultado é previsível: frustração, baixa empregabilidade e desperdício de recursos.
Garantir qualidade também passa a ser central. Não basta ofertar cursos, é preciso assegurar que eles, de fato, transformem a trajetória dos jovens. Isso implica desenvolver competências transferíveis a diferentes ocupações, como comunicação, resolução de problemas e trabalho em equipe, utilizar metodologias mais conectadas ao mundo real e aproximar o setor produtivo dos processos formativos, de forma que possamos oferecer aos jovens uma combinação de intervenções que permita conectar a oferta de cursos com a demanda por profissionais. Após a conclusão dos cursos, oferecer apoio para a inserção e progressão profissional do jovem é fundamental. A lógica deixa de ser apenas a conclusão de cursos e passa a ser a geração de oportunidades concretas.
Nenhum desses avanços será possível sem uma organização do sistema que hoje é ofertado. O Brasil conta com diversidade de atores na oferta de qualificação profissional, mas ainda com baixa coordenação entre eles. Avançar exige fortalecer a governança, ampliar a articulação entre governo, setor produtivo e organizações formadoras, garantir a participação das juventudes e utilizar dados de forma mais integrada para orientar decisões. Mais do que criar programas, o desafio está em fazer o sistema funcionar de forma coordenada.
O Brasil ainda tem uma janela de oportunidade, mas ela está se fechando rapidamente. Diante do envelhecimento populacional e das transformações do trabalho, a qualificação das juventudes ultrapassa a agenda social e se impõe como uma estratégia central de desenvolvimento para o país. A boa notícia é que os caminhos já estão colocados. O desafio, agora, não é mais de diagnóstico, é de execução. E, neste caso, o tempo importa.
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