Reconstrução de florestas será a real contribuição do Brasil contra mudanças climáticas
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O Brasil se prepara para sediar a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), em 2025, sem um plano concreto de corte de emissões de carbono e sem que isso seja uma prioridade política. De acordo com Jorge Caldeira, escritor, historiador e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), a capacidade nacional para firmar os compromissos climáticos são nulas — e as instituições nacionais nem sequer sabem como responder a essa necessidade.
Diante disso, a lição de casa do País será chegar à COP30 com uma ideia clara do que fazer, e não esperar que investidores aportem recursos onde não há uma estratégia definida. “O atraso é nosso. Dos países do G20, 17 têm plano de carbono neutro; nós não temos nem o começo da conversa de qual será o nosso. Precisamos reconhecer isso e desenvolver as competências internas para lidar com a nova economia”, enfatiza Caldeira. E complementa: “A economia do futuro é descarbonizada. Temos de pensá-la desde a extração da natureza até a reciclagem”.
Segundo o escritor, se o Brasil seguir o caminho do carbono neutro, será o país mais beneficiado. Ele relata que a Nação tem 50% da capacidade mundial de retirar o composto da atmosfera, por meio da restauração das florestas. Apesar do discurso de que isso prejudicaria a agricultura, Caldeira lembra que, de todo o território nacional, a atividade econômica ligada à natureza ocupa apenas um terço. Outro terço corresponde às áreas de conservação e dos povos originários, que “sequestram” 600 milhões de toneladas de carbono. Já a terceira parte do território não é usada para produção agrícola, indústria, pecuária ou conservação. “Essa fatia, maior do que o Sudeste, é de área degradada, abandonada e sem produção econômica. É aí que temos de trabalhar. Não podemos ser um país onde ninguém pense ou se importe com um terço do próprio território.”
Em entrevista ao Canal UM BRASIL — uma realização da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) —, o escritor salienta que o País não pode mais pensar na natureza como um lugar onde se arrancam árvores e se joga lixo. “Agora, há disposição no mundo para pagar pela fixação de carbono. Reconstruir floresta é uma atividade econômica nova, e há recursos para isso. A contribuição real do Brasil para o mundo é plantar árvores.”
Petróleo ficou para trás e nova geopolítica será a da energia limpa
Caldeira sinaliza que a geopolítica deste século é a produção de energia limpa, de forma que um projeto voltado à exploração do petróleo no Brasil tem poucas chances de funcionar. Por outro lado, o risco de superprodução do combustível fóssil no mundo é crescente, tendo em vista que a China está expandindo e popularizando a fabricação de carros elétricos, reduzindo permanentemente a necessidade do insumo.
“A geopolítica baseada no controle do petróleo, no domínio da distribuição e na invasão de locais que são fonte da matéria está perdendo sentido. Isso é uma mudança secular. A China está liderando essa mudança, enquanto os Estados Unidos são os maiores produtores do mundo, e o custo para mudar naquele país é altíssimo. Esse é o problema central dessa transição. O que até então era tema de organização climática, está virando uma guerra econômica”, complementa.
Energia solar sem estratégia nacional
Na entrevista, o historiador ressalta que, de 2018 para cá, o País construiu, em energia solar, o equivalente à dimensão de três usinas de Itaipu, a maior usina hidrelétrica do Brasil e uma das principais para a geração de energia limpa do mundo. “O Brasil será a economia mais beneficiada com a mudança para métodos de produção mais sustentáveis e de emissão neutra de carbono. Uma placa solar aqui produz 40 vezes mais energia do que na Alemanha. Isso não é um prêmio de produtividade para a tecnologia nacional, mas mérito do que a natureza oferece ao País. Por que não se aproveita? O ser humano precisa mudar o jeito de pensar. A natureza é ponto central da vida, hoje”, frisa.
Ele ainda comenta que quando a transformação nos métodos de produção ocorre de forma acelerada no mundo, o custo de não mudar é imenso. Contudo, “o sistema político brasileiro não foi montado para resolver esses problemas. No caso de energia solar, por exemplo, há um plano no Brasil? Não, não temos. Nenhum político ou partido decidiu por isso”, destaca.
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