Com o cinema nacional, espectador brasileiro se enxerga nas grandes telas
ENTREVISTADOS
MEDIAÇÃO
EM POUCAS PALAVRAS...
O que você vai encontrar nesta entrevista?
- Para a atriz, apresentadora e cineasta Marina Person, o incentivo às produções brasileiras depende das políticas de apoio financeiro e passa por garantir tempo de exibição nas salas em um momento de avanço dos blockbusters internacionais.
- Marina cita como exemplo o caso de sucesso do cinema coreano, que ganhou o mundo depois de uma série de políticas de incentivos, e aborda os desafios da regulação do streaming no País.
- Para a cineasta, é justo que as empresas do ramo audiovisual que chegam ao Brasil para, de alguma forma, “explorar um território”, deixem parte de seus lucros no País a fim de fomentar os negócios e profissionais brasileiros do setor.
“O público brasileiro, quando lhe é dada a oportunidade, comparece. Ele vai ao cinema ver — vai se ver. Porque o cinema nada mais é do que um espelho.” A fala, que é quase uma ode ao potencial do audiovisual sobre como enxergamos a nós mesmos, é da apresentadora, atriz e cineasta Marina Person.
Em entrevista à Revista Problemas Brasileiros e ao Canal UM BRASIL — ambas realizações da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) —, em parceria com o evento de comunicação empresarial Aberje Trends, da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), Marina analisa o passado, os gargalos e os avanços do cinema nacional.
Para a cineasta, o incentivo às produções brasileiras depende das políticas de apoio financeiro e passa por garantir tempo de exibição nas salas em um momento de avanço dos blockbusters internacionais. Ela cita como exemplo o caso de sucesso do cinema coreano e aborda os desafios da regulação do streaming no País.
A importância do apoio ao cinema nacional
- Águas passadas. Quando Marina estreou no Cine MTV, da extinta emissora MTV Brasil, nos idos dos anos de 1990, o cinema brasileiro passava por um momento difícil de recessão. “A produção cinematográfica estava bem ruim. Plano Collor, [fechamento da] Embrafilme, pré-retomada, era uma época muito difícil”, afirma.
- Ainda assim, o cinema acontecia. “Eu falava: ‘A gente tem que fazer making of. Tem que falar com os atores, com os diretores e diretoras, roteiristas. Tem que fomentar o nosso cinema’. Afinal de contas, é a nossa identidade, a nossa cara, a nossa língua, os nossos artistas, somos nós. Somos nós ali”, conta a cineasta.
- A era das políticas de incentivo. De lá pra cá, com apoio de políticas públicas e a força de quem trabalha no setor, o cinema nacional alçou voos mais altos. Uma das ferramentas de estímulo ao audiovisual nacional é a política de cota de tela, que determina que todos os cinemas comerciais do País reservem um número mínimo de sessões ou dias de exibição para filmes brasileiros — que acaba de ser renovada até 2033.
- Colhendo resultados. Hoje, a área vive um período de expansão, com sucessos que conquistaram o público e a crítica internacionais, como Ainda estou aqui e O agente secreto, com indicações ao Oscar por dois anos consecutivos. Em 2025, o setor registrou R$ 1,41 bilhão em recursos públicos desembolsados, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine). De acordo com o portal Filme B, o público total das produções brasileiras exibidas nos cinemas no ano passado foi de 11,9 milhões.
O exemplo da indústria cultural na Coreia do Sul
- Guinada sul-coreana. Quando o assunto é a produção cultural e audiovisual, a Coreia do Sul é um “exemplo de sucesso inequívoco”, defende Marina. O motivo? Ao olhar os números da indústria automobilística e da indústria audiovisual norte-americana, nos anos de 1990, o governo sul-coreano entendeu que a diferença entre o custo da produção e os lucros eram absurdos. Por isso, resolveu investir na produção própria, nacional.
- De Seul ao Oscar. “Desde 1996, o governo investe consistentemente em cultura. O resultado que a gente vê, hoje, é o k-pop sendo um dos gêneros musicais favoritos de todo mundo, os jovens aprendendo coreano”, explica a cineasta. Marina elenca outros frutos da política de investimentos. O primeiro Oscar de um filme não falado em inglês foi para Parasita, em 2022, longa que também levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2019.
- Mais recursos, mais retorno. “O que é isso? Sorte? Talento? Sim, eles são talentosos, mas não é sorte. Isso é consistência de investimento. Isso é uma formação de um país que olhou e falou assim: ‘A cultura é um bom negócio e eu vou nessa, deste soft power não vou abrir mão’”, afirma.
O gargalo da distribuição dos filmes
- A disputa com os gigantes. Diferentemente das décadas de 1970 e 1980, quando os filmes brasileiros conseguiam permanecer por bastante tempo em cartaz, principalmente nos cinemas de rua, atualmente, a produção nacional compete com os blockbusters norte-americanos — e, geralmente, são “arrancados” das salas de cinema pelos lançamentos internacionais.
- É o que explica a cineasta. “O distribuidor tem [poder de] imposição. Impõe que, por exemplo, das oito salas desse ‘Multiplex’, cinco vão passar o Homem Aranha em tempo integral”, explica Marina. “Existe uma lei que proíbe isso. Porque você tem que dar ao espectador, inclusive, a opção de ele ver outra coisa se quiser. Hoje não acontece isso”, completa.
- Exibição é desafio principal. Um grande lançamento, muitas vezes, é, de fato, avassalador e consegue dominar todas as salas. Mas a exibição segue sendo um grande entrave ao cinema nacional, pondera a cineasta. “O público brasileiro, quando lhe é dada a oportunidade, comparece. Ele vai ao cinema ver. Vai se ver”, afirma.
Lei precisa regular o streaming no Brasil
- A importância de uma contrapartida. Para a cineasta, é justo que as empresas do ramo audiovisual que chegam ao Brasil para, de alguma forma, “explorar um território”, deixem parte de seus lucros no País a fim de fomentar os negócios e profissionais brasileiros do setor. É dessa forma que funciona, hoje, a Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), um tributo federal brasileiro cobrado sobre a produção, a distribuição, o licenciamento e a exibição de obras audiovisuais com fins comerciais.
- Regulação é oportunidade.“É com isso que a gente faz o Fundo Setorial do Audiovisual. Para evitar que a empresa simplesmente extraia esse lucro daqui e remeta tudo para fora do País”, explica Marina. De acordo com ela, algo similar deveria acontecer com a regulação dos serviços de streaming que atuam no Brasil. “Quando a gente fala da Lei do VOD [Video On Demand], por exemplo, é sobre isso: que parte desse dinheiro fique no Brasil em forma de estímulo à produção audiovisual”, completa.
ENTREVISTADOS
CONTEÚDOS RELACIONADOS
Educação e Cultura
Com o cinema nacional, espectador brasileiro se enxerga nas grandes telas
A apresentadora, atriz e cineasta Marina Person fala sobre os gargalos e os avanços do audiovisual produzido no País
ver em detalhes
Economia e Negócios
O Brasil e os desafios de uma Reforma Fiscal
Os professores Marcio Holland e Tathiane Piscitelli inauguram aula do curso O Futuro do Brasil em Debate: Um Olhar Interdisciplinar, promovido pela FGV Direito SP e FGV EESP, em parceria com o Canal UM BRASIL
ver em detalhes
Sociedade
80 anos de Sesc: bem-estar social como missão
Luiz Galina, diretor regional do Sesc São Paulo, rememora as origens e transformações da instituição reconhecida por seus serviços de lazer, esporte e cultura
ver em detalhes