Bioeconomia desafia cultura das commodities no Brasil
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EM POUCAS PALAVRAS...
O que você vai encontrar nesta entrevista?
- Joanna Martins, sócia-fundadora da Manioca, diretora-executiva do Instituto Paulo Martins e pesquisadora em cultura alimentar e alimento amazônico, explica os desafios e as oportunidades de empreender no contexto amazônico.
- De acordo com ela, existe, sim, um caminho para agregar alto valor aos ativos naturais da Amazônia respeitando os direitos socioambientais: a bioeconomia.
- A economia que transforma matérias-primas da floresta em produtos de valor também tem o potencial de gerar mais qualidade de vida para o território e as comunidades locais, defende.
Há, de fato, um caminho para agregar alto valor aos ativos naturais e saberes da Amazônia enquanto se mantém a floresta em pé (e preservada) — e esse caminho é a bioeconomia. É o que defende Joanna Martins, sócia-fundadora da Manioca, diretora-executiva do Instituto Paulo Martins e pesquisadora de cultura alimentar e alimento amazônico.
Joanna argumenta que é preciso superar o estigma que coloca os amazônidas na condição única de exportadores de commodities. “Sem agregar valor, seremos só fornecedores de matéria-prima. O Brasil ainda acha que esse é o lugar dele, mas nós temos certeza que não é onde queremos estar. Não é isso que a Amazônia quer”, explica.
“A Europa está aí para provar. O continente transforma um ingrediente em 300 produtos diferentes, de altíssimo valor agregado, e oferece isso para o mundo. O mundo compra. Por que a gente não pode fazer igual?”, questiona, em entrevista à Revista Problemas Brasileiros e ao Canal UM BRASIL — ambas realizações da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
A conversa foi gravada em Belém (PA), no evento Encontros COP30 | Clima, Impacto e Mercado, uma realização da Revista Problemas Brasileiros e da FecomercioSP, em parceria com a Casa Balaio, que contou com o apoio da Aberje e do UM BRASIL.
Agregar valor para preservar
- Ganha-ganha. Transformar as matérias-primas e as culturas da Amazônia em produtos de valor pode gerar mais qualidade de vida para o território, mais desenvolvimento e mais valorização das culturas locais. O potencial de impacto socioambiental positivo é alto, explica Joanna.
- Economia da floresta em pé. “Se conseguirmos fazer esse modelo, que é o que eu acredito, é o que a gente faz na Manioca — e já existe, hoje, um ecossistema aqui, apoiando esse desenvolvimento —, vamos, consequentemente, manter a floresta [preservada]. Porque são ativos que vêm da floresta. Vamos até reflorestar”, explica.
- Modelos de sucesso. Joanna lembra do caso do cumaru, uma árvore cuja a madeira já foi muito utilizada e que, hoje, vem sendo replantada pelas comunidades. “A gente conseguiu apresentar a semente para o mercado, começou a gerar demanda. Agora, ela tem tanto valor que não vale a pena derrubar a árvore”, completa.
A busca por outro modelo produtivo
- O Brasil precisa conhecer a Amazônia. O desenvolvimento de modelos produtivos baseados nos ativos e saberes da floresta é um projeto de longo prazo. Encontrar soluções para desenvolver essa cadeia não acontece de um dia para o outro. “Para que tudo isso aconteça aqui, o resto do País precisa entender mais o território amazônico, conhecer mais, valorizar mais essa região e essa cultura. E também pensar de forma sistêmica, nunca isolada”, explica a pesquisadora.
- Valor versus escala. Na sua opinião, o Brasil e a Amazônia têm capacidade de agregar esse valor a seus produtos sem, necessariamente, trabalhar com altas escalas. Joanna defende um outro modelo produtivo, com respeito à capacidade da natureza. “A gente precisa atualizar nosso modelo. Dá para gerar uma economia poderosa, sem necessariamente trabalhar com grandessíssimos volumes, ou commodities, como a gente está acostumado”, explica. Trabalhar com produtos da Amazônia significa trabalhar com “um tempo diferente, uma ambição diferente e uma relação com o meio ambiente mais equilibrada”, completa.
- O tempo da floresta. Exemplo disso é o açaí, produto que, há alguns anos, é sucesso em todo o País. Apesar de levar desenvolvimento às regiões de origem, hoje, o açaí sofre as consequências de um mercado que não leva em conta o tempo e o contexto da floresta. “Estamos começando a perder a mão. Porque é só um ativo que está sendo valorizado. E, aí, começa a gerar uma pressão de produzir muito aquele ativo — e isso gera uma pressão no meio ambiente também. Não dá para trazer modelos prontos para cá e querer que funcione”, adverte Joanna.
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