Democracia não é uma ideia enraizada na América Latina
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Quando toda uma geração é atingida pelo trauma do autoritarismo, isso é repassado para filhos e netos. No entanto, esse trauma vai se diluindo aos poucos, ocasionando altos e baixos na defesa da democracia pela sociedade, explica o jornalista e analista internacional Lourival Sant’Anna, autor do livro recém-lançado O estado da democracia: 100 colunas no Estadão sobre o grande desafio do nosso tempo.
Em entrevista ao UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, Sant’Anna comenta alguns tópicos que compõem a obra, fruto de sua coluna no jornal O Estado de S. Paulo.
“A democracia exige um esforço muito grande de educação dos instintos humanos que pedem o autoritarismo, as soluções mágicas e rápidas, a não negociação e a intransigência. Então, cabe à educação conter estes impulsos. Essa educação é transmitida geracionalmente. A partir do momento que isso se dilui, o ser humano volta ao estado primitivo, do ponto de vista político, e resolve experimentar com a solução autoritária e populista, tendo esquecido o que seus bisavôs sofreram”, pondera o analista.
Ele também comenta como traços históricos corroboram com a dificuldade de se concretizar a democracia na América Latina. “O Brasil e seus vizinhos são todos ex-colônias ibéricas. A democracia na Península Ibérica também é algo muito recente. Então, nós herdamos um DNA autoritário muito marcado, que entrou em contato com outras culturas locais verticalizadas. Não há nenhum respiro democrático nestes ingredientes culturais e históricos”, enfatiza.
“A democracia é uma ideia importada sem grande enraizamento na América Latina. Se olharmos para nossos vizinhos, o único onde realmente teve alternância de poder a cada quatro anos foi a Colômbia; mas, ainda assim, há lá uma cultura de violência fortíssima e uma elite totalmente descolada, com um racismo contra os de origem indígena”, o autor sinaliza.
Por fim, Sant’Anna destaca que, ainda assim, existem na cultura brasileira alicerces que permitam ao País construir valores num plano nacional, aproveitando as coisas boas de nossa cultura para “fazer frente ao ressentimento (que é a mistura de raiva e tristeza) que leva muitas pessoas à confrontação, ao egoísmo extremo e à salvação como um projeto puramente pessoal – e, até mesmo, baseado na eliminação do outro”, conclui.
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