‘Realpolitik’: como a lei da força redefine a competitividade digital
*Andriei Gutierrez
A ação dos Estados Unidos na Venezuela, assim como a decisão do governo norte-americano de abandonar mais de 66 entidades internacionais — das quais 35 são vinculadas à Organização das Nações Unidas (ONU) — sedimentam os contornos de uma geopolítica guiada pela força e pela capacidade de pressão das grandes potências, sobrepondo-se a decisões multilaterais construídas ao longo de meses de debate. Esse cenário mostra que é cada vez mais essencial que países, como o Brasil, preparem uma estratégia nacional que os posicione como polo para o desenvolvimento de novas tecnologias — um ativo indispensável na geopolítica moderna — a fim de garantir competitividade no mundo digital.
O uso da força não é um movimento novo nas relações internacionais. O multilateralismo e a globalização baseada no livre fluxo de mercados dos últimos 80 anos foram a exceção, e não a regra. O que muda agora, e torna o posicionamento no tabuleiro global ainda mais complexo para os países, é a centralidade da tecnologia nessas disputas e seu poder de condicionar economias. A transformação digital, impulsionada pela Inteligência Artificial (IA), está provocando mudanças de grandes proporções no capitalismo contemporâneo. A introdução dessa tecnologia nos processos produtivos sinaliza uma revolução na gestão de recursos, pessoas e cadeias de produção, assim como na produtividade das organizações.
Para sustentar todo esse ecossistema, é necessária uma intrincada rede de comunicações por cabos submarinos, satélites, fibras ópticas e antenas locais, interconectando essas cadeias produtivas e potencializando novos serviços digitais. Datacenters estão se tornando ativos estratégicos nacionais e fatores de competitividade mundial para grandes empresas de tecnologia na corrida pela supremacia em IA.
Em se tratando de regulação, tributação e governança, a busca por consensos passava nas últimas décadas, inevitavelmente, pela grande influência da União Europeia (UE). Contudo, o reemergir da geopolítica da força alterou profundamente esse arranjo institucional. A UE se vê obrigada a aumentar os investimentos em defesa em ordem superior a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, diante da invasão da Ucrânia pela Rússia, das constantes ameaças do governo Trump de deixar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da possível ocupação da Groenlândia. Além de todo esse contexto, há ainda os aumentos de tarifas e outras ameaças em decorrência das regulações que afetam empresas de tecnologia norte-americanas.
A Europa se viu diante de uma necessidade crescente de simplificação burocrática para que suas organizações pudessem competir e inovar nesses novos quadros macroeconômico e geopolítico. A ficha caiu, e o bloco intensificou os esforços em 2025, adotando um pacote de simplificação administrativa (Digital First), em especial para reduzir encargos do GDPR, do AI Act e do Data Act para startups e microempresas de até 250 funcionários. Além disso, reduziram-se 25% das obrigações de reportes em privacidade, concorrência e sustentabilidade, diminuindo a burocracia para a mudança de provedores de nuvem previstas no Data Act e adotando o fast track para acelerar projetos de produção de semicondutores, flexibilizando o CHIP Act.
Mirando o futuro do Brasil e a competitividade das organizações nacionais, é notório que precisamos urgentemente de uma estratégia de médio e longo prazos que nos posicione nesse novo cenário, com redução do peso regulatório e comprometimento sério em investimentos em tecnologia, inovação e defesa. E não há como fazer isso sem um debate sério e profundo sobre gastos públicos, Reforma Administrativa e Pacto Federativo.
Em outra frente, as organizações não podem mais se dar ao luxo de avançar no status quo do mercado. Geopolítica e transformação digital precisam entrar para valer no core business e, sobretudo, na estratégia da organização. É preciso ter resiliência adaptativa e estar preparado, tanto nos planejamentos financeiros quanto na gestão de suprimentos e de fornecedores, para eventuais choques externos.
Artigo originalmente publicado no jornal Correio Braziliense em 03 de fevereiro de 2026.
*Presidente do Conselho de Economia Digital e Inovação da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) e sócio da Innova Assuntos Públicos.
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