Quem lidera o Estado importa
Cibele Franzese, Jessika Moreira, Samuel Nascimento, Fabricio Marques, Betânia Lemos e Marco Camargo*
O debate sobre capacidade estatal envolve um aspecto que ainda ocupa menos espaço do que deveria, apesar de seu impacto direto sobre a qualidade das políticas públicas: quem lidera o Estado e em quais condições exerce essa liderança. Ainda mais quando levamos em consideração que essa discussão é usualmente centrada na esfera federal, que concentra apenas cerca de 10% de toda a força de trabalho da administração pública.
Em um contexto de crescente complexidade para o exercício da gestão pública, ampliar a capacidade dos governos passa, necessariamente, por fortalecer mecanismos de seleção, desenvolvimento, reconhecimento e suporte às lideranças públicas. É fundamental reconhecer que instituições públicas mais capazes dependem de pessoas preparadas, combinando a legítima dimensão política de suas nomeações com outras, de natureza técnica, gerencial e de representatividade. Lideranças públicas precisam conduzir equipes, coordenar prioridades, garantir entregas, tomar decisões e transformar todas essas ações em resultados para a sociedade.
É nesse contexto que nasce o Grupo de Trabalho (GT) de Políticas de Gestão de Lideranças para Estados, uma iniciativa voltada a construir referências para apoiar governos estaduais no fortalecimento de suas lideranças. Coordenado pelo Movimento Pessoas à Frente, a iniciativa conta com a parceria de instituições comprometidas com o aprimoramento dessa alavanca de transformação do Estado: o Conselho Nacional de Secretários de Estado da Administração (CONSAD), o Conselho Nacional de Secretários Estaduais do Planejamento (CONSEPLAN) e a Escola Nacional de Administração Pública (ENAP). A partir da sintonia entre as organizações, o GT já teve a adesão de 15 estados desde a sua criação, há pouco mais de um mês.
Ao longo dos próximos meses, o grupo reunirá representantes dos governos estaduais e especialistas da academia e terceiro setor em uma agenda estruturada de construção coletiva.
Os encontros abordarão três questões centrais: como qualificar o processo de ingresso desses dirigentes de modo a termos lideranças mais preparadas e diversas conduzindo a entrega dos serviços públicos; como gerenciar o desempenho e desenvolvimento dessas lideranças; e como promover a governança deste modelo de forma sustentável dentro de um ambiente político e gerencial, com aumento de transparência. A premissa comum a todos é que fortalecer lideranças exige combinar legitimidade política e técnica, além da capacidade de adaptação às realidades locais.
A necessidade de ter mais mulheres e pessoas negras em posições de liderança na Administração Pública, garantindo a representatividade dos maiores grupos populacionais brasileiros nos espaços de tomada de decisão, ilustra a importância dessa ação conjunta. Embora avanços importantes tenham sido registrados nos últimos anos, a composição desses postos ainda permanece distante do retrato da nossa sociedade brasileira. No governo federal, mulheres ocupam 43% dos cargos de alta liderança, mas apenas 12,3% dessas posições são ocupadas por mulheres negras e indígenas. Os dados são do Observatório de Pessoal do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI).
Nos estados, o cenário revela desafios próprios: segundo o Censo das Secretárias, apenas 28% das secretarias estaduais são lideradas por mulheres e, entre essas secretárias, 37,8% são mulheres negras. Pesquisa Datafolha feita em parceria com o Movimento Pessoas à Frente em 2025 indicou que 80% dos brasileiros apoiam a reserva de vagas em cargos de liderança no setor público, em linha com os 89% que haviam afirmado, em 2023, que concordam com a importância de medidas que promovam a diversidade étnico-racial no serviço público; e 86% a paridade de gênero.
Ampliar oportunidades de acesso, desenvolvimento e reconhecimento de diferentes perfis é uma agenda de representatividade, legitimidade e também de capacidade dos governos de incorporar perspectivas diversas, ampliar legitimidade institucional e responder com mais qualidade à complexidade dos desafios contemporâneos.
O momento também importa: o ciclo eleitoral de 2026 abre uma oportunidade concreta para que os estados construam instrumentos e caminhos de implementação e planejamento capazes de dialogar com as futuras equipes de governo desde o início do ciclo de gestão 2027–2030.
Ao reunir estados com diferentes contextos institucionais, capacidades administrativas e estágios de desenvolvimento nessa agenda, o GT parte do entendimento de que governos não precisam lidar sozinhos com desafios que já vêm sendo enfrentados, e muitas vezes resolvidos, em outros lugares. Em diferentes partes do país, sob diferentes vertentes políticas, há experiências relevantes de atração, desenvolvimento, reconhecimento e apoio a lideranças que permanecem pouco conhecidas ou circulam de forma fragmentada. É preciso criar condições para que essas experiências sejam compartilhadas, debatidas e traduzidas em referências úteis para outros contextos, formando um repertório comum de aprendizados e possibilidades para os estados.
Nesse processo, atuamos como articuladores de uma conversa que já existe, mas que ainda carece de espaços permanentes de troca e sistematização. Essa é uma demanda institucional e também da sociedade brasileira, que já reconhece a centralidade das lideranças para a qualidade da ação pública. Dados recentes do Datafolha indicam que 89% das pessoas confiariam mais no Estado se cargos de chefia passassem por processos de pré-seleção; 84% atribuem às lideranças a principal responsabilidade pela qualidade dos serviços públicos; e 82% acreditam que pessoas bem-preparadas em posições de decisão melhoram a vida da população. Há apoio social para a profissionalização e o desafio agora é transformar essa expectativa em soluções efetivas.
Nenhuma política pública acontece sozinha. Entre uma decisão de governo e uma entrega concreta para a população existe sempre um conjunto de pessoas responsáveis por coordenar equipes, tomar decisões, enfrentar restrições e sustentar mudanças ao longo do tempo. Por isso, reunimos diferentes instituições em torno do esforço de desenvolver as pessoas que fazem o Estado acontecer. Falar sobre lideranças públicas é discutir a capacidade real do país de responder aos desafios do presente e se preparar para o futuro.
Cibele Franzese
professora da FGV EAESP e integrante do Movimento Pessoas à Frente
Jessika Moreira
diretora-executiva do Movimento Pessoas à Frente
Samuel Nascimento
presidente do Conselho Nacional de Secretários de Estado da Administração (CONSAD)
Fabricio Marques
presidente do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Planejamento (CONSEPLAN)
Betânia Lemos
presidenta da Escola Nacional de Administração Pública (Enap)
Marco Camargo
Diretor de Lideranças Públicas da Motriz
Este conteúdo é fruto de uma parceria editorial com o Movimento Pessoas à Frente — uma organização suprapartidária e plural, composta por mais de 200 pessoas com diferentes perspectivas políticas, sociais e econômicas, comprometidas com o aprimoramento das políticas de gestão de pessoas no setor público.

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