Caminhos para uma agenda nacional estratégica
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MEDIAÇÃO
A energia, os minerais e os alimentos fazem parte de uma agenda nacional estratégica que está diretamente ligada à segurança econômica e à geopolítica do País. Essa foi uma das conclusões do evento De Potencial a Poder: o que Precisa Mudar para que o Brasil Mude, promovido pela Meridiana — organização brasileira voltada para a produção de políticas públicas no desenvolvimento econômico de baixo carbono no Brasil —, com apoio da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), por meio do Canal UM BRASIL e da Revista Problemas Brasileiros (PB).
O painel mediado por Mônica Sodré, CEO do Meridiana, que discutiu a importância dos setores energético, mineral e alimentício, reuniu também Elena Landau, economista e advogada, com passagens pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI); Grazielle Parenti, vice-presidente-executiva de Sustentabilidade da Vale; Heloisa Borges, ex-diretora da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e servidora da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP); e Teresa Vendramini, pecuarista e ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB).
As discussões revelaram que o Brasil não precisa escolher ser uma potência de recursos naturais ou uma economia baseada em tecnologia e inovação. A oportunidade está em usar suas vantagens existentes como base para construir novas cadeias de valor, ampliar sua inserção internacional e aumentar a própria capacidade de influenciar as transformações globais.
Para as participantes, o ponto central é superar a lógica de reação e construir uma visão estratégica de país, capaz de conectar energia, alimentos, minerais, indústria, ciência, finanças, diplomacia e iniciativa privada.
Clima e geopolítica são temas novos para o pequeno produtor rural
- Desafios e obstáculos. No Agronegócio, Teresa destacou que o Brasil já conta com uma posição relevante, mas ainda lida com impasses como insegurança jurídica, direito à propriedade privada, questões fundiárias, falta de mão de obra e vulnerabilidades relacionadas a insumos.
- Distância entre pautas e realidade. Ela também citou que a esmagadora maioria do Agronegócio brasileiro é formada por pequenos produtores rurais, detentores de propriedades abaixo de 500 hectares. Esse é o chamado “Brasil real” — mas que ainda não está inteirado em temas como clima e geopolítica.
- Do ‘low carbon’ aos conflitos mundiais. “Tudo isso é novo para o pequeno produtor. Falando de ‘Brasilzão’, não está na nossa mesa esse tipo de coisa, como ‘low carbon’”, aponta ela. “Eu lembro que a gente começou a ouvir falar de geopolítica em 2020, com a pandemia de covid-19, quando começou a não chegar algumas coisas no Brasil, e esse produtor percebeu que estava tudo conectado”, completa.
Projetos de mineração levam décadas para gerar resultados
- Gerar valor agregado. Na mineração, Grazielle, da Vale, explicou que os minerais críticos ganharam importância central na disputa geopolítica e que o Brasil possui uma das maiores dotações minerais do mundo. O desafio, segundo ela, é transformar reservas em cadeias produtivas capazes de gerar emprego, renda, tecnologia e poder econômico.
- Quando vamos colher o que plantamos? A executiva ressaltou que, assim como a energia, a mineração tem uma lógica de longo prazo. Um projeto demora anos para ser planejado e mais 10 a 15 anos para ser licenciado. “O que nós estamos fazendo hoje, alguém vai colher em 2035. O que nós estamos fazendo hoje, nós estamos colhendo o que alguém fez em 2015”, completou.
- Recurso, investimento e tecnologia. Para além dos recursos minerais, as debatedoras defenderam que o País deve apostar nas cadeias de valor energéticas que já domina, como petróleo, gás, biogás, bioenergia e biocombustíveis, conciliando desenvolvimento e redução de emissões. Em comum, elas convergiram para a necessidade de combinar recursos naturais, tecnologia, investimento, infraestrutura, regulação e planejamento de longo prazo.
Setor elétrico nacional não tem governança
- Contradições do setor. Segundo Elena, não dá para discutir o setor elétrico sem falar de algo maior: a crise de governança que atravessa o Brasil. “O setor elétrico é vítima da imoralidade que reina por aqui. É um setor dominado por lobbies. Cada centavo da tarifa de energia elétrica tem impressão digital”, afirmou. Segundo a especialista, todo mundo sabe quem está por trás de cada “jabuti” [emenda estranha ao tema original de um projeto de lei] e quais interesses estão em jogo, enquanto grupos muito poderosos seguem atuando livremente. “Tem rastreabilidade e só não se pega porque não quer.”
- Funcionamento das instituições. Elena defendeu que a governança seja o ponto de partida de qualquer debate. Para a economista, enquanto as atenções se voltam às crises do Supremo Tribunal Federal (STF) e da dívida pública, o mau funcionamento das instituições contamina várias outras áreas. “A gente tem que parar de fingir que as coisas estão funcionando mais ou menos. Estão funcionando mal”, afirma.
- Controle e planejamento. Heloísa, da FGV, também citou a governança como um dos principais entraves nacionais. Segundo ela, o setor de energia é marcado pela influência de interesses específicos sobre tarifas e decisões, enquanto o Brasil perdeu capacidade de controle e planejamento. “É preciso trabalhar problemas estruturais do sistema e reorganizar a matriz energética, garantindo melhor alocação de custos e recursos.
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