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O lugar de crianças com deficiência é na escola regular

DEBATEDORES | Jairo Marques

“As pessoas, ainda hoje, questionam a importância da representatividade: não acham necessário uma pessoa com deficiência com um cargo político, por exemplo”, afirma o jornalista Jairo Marques, que é cadeirante e uma das principais vozes no debate sobre a inclusão social de pessoas com deficiência física. “A representatividade é determinante: quando me vejo espelhado em alguém, ganho fôlego para seguir e para lutar por mim mesmo”, explica, em conversa com o jornalista Leandro Beguoci para o canal UM BRASIL.

Colunista da Folha de S.Paulo e autor do livro Malacabado – a história de um jornalista sobre rodas, Marques comenta suas trajetórias pessoal e profissional, a inclusão de crianças com deficiência nas escolas, a acessibilidade das calçadas e os desafios das políticas públicas para as pessoas com necessidades especiais durante a entrevista.

“Se não fosse a cadeira de rodas, talvez você não tivesse vindo tão longe”, observa o jornalista Leandro Beguoci. Marques concorda: “As pessoas costumam ver a cadeira de rodas como algo que prende as pessoas, mas é ela que me faz ir adiante”.

As calçadas das cidades são uma de suas obsessões, conta Marques. “A calçada vai delimitar o que você precisa para enfrentar o mundo. Se a calçada em frente à sua casa for muito esburacada, é preciso uma disposição muito grande para sair”, explica. “Em Três Lagoas, minha cidade natal, as ruas eram de areia, eu saía de casa com muito esforço. Mas eu não via saída: a outra opção era ficar dentro de casa, e isso não era confortável para mim”, diz.

Da calçada à política pública

“Seria importante que houvesse um intenso trabalho de preparação dentro das escolas para a sociedade entender que o lugar da criança com deficiência – com qualquer deficiência – é a escola regular”, defende Marques. “Situações individuais não podem ser descartadas, mas o individual não pode determinar o coletivo. Toda criança com qualquer tipo de deficiência deve estar junto com outras crianças: esse ponto, para mim, é inquestionável.”

Durante a conversa, o jornalista defende que não existe manual para fazer uma escola se tornar inclusiva. “Para fazer essa escola, precisamos do pai, do professor, do diretor e da sociedade”, acredita.

“As pessoas aprendem de formas diferentes. Quando temos uma criança com deficiência em sala de aula, questionamo-nos se ela aprende tudo igual aos outros – mas nós não somos todos idênticos”, defende. “Então, a expectativa é de que a criança com deficiência esteja aprendendo à sua maneira.”

Para o jornalista, a quantidade de pessoas com deficiência no mercado trabalho atualmente, embora esteja muito aquém do que define a lei (para cotas e acessibilidade), é surpreendente. “A inclusão desses profissionais me agrada. Me surpreende ver essas pessoas também construindo famílias: era impensável se colocar como cidadão dessa maneira poucos anos atrás”, conta.

“O que me incomoda é a dificuldade das pessoas de entender o outro. Até hoje tenho de explicar por que preciso de uma vaga especial, uma rampa ou cotas para trabalhar. É um discurso que existe há muito tempo para que as pessoas ainda tenham dúvidas tão básicas”, finaliza.

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