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“Mundo globalizado foi atacado aos poucos”, diz Marcos Troyjo

DEBATEDORES | Marcos Troyjo

As recentes crises econômicas e a ascensão do terrorismo no mundo sustentam o processo de desglobalização que tem ganhado força em nações desenvolvidas como os Estados Unidos e o Reino Unido. Embora pareça recente, essa postura começou a surgir ainda na década passada, a partir dos ataques terroristas do dia 11 de setembro de 2001, segundo o diplomata, cientista social e diretor do BRICLab da Universidade de Columbia, Marcos Troyjo.

Em entrevista ao UM BRASIL, realizada em parceria com o InfoMoney, Troyjo diz que o mundo globalizado, a favor do livre-mercado e do enfraquecimento das fronteiras, foi sendo atacado aos poucos, até culminar neste ano com a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia e a vitória de Donald Trump na eleição presidencial norte-americana, cujos temas de campanha envolviam políticas protecionistas e rompimento de acordos internacionais.

“Esse mundo começou um pouco a ser estilhaçado com o 11 de Setembro, do ponto de vista geopolítico, o que exigiu dos Estados Unidos a chamada Guerra ao Terror, e é claro uma espécie de irresponsabilidade financeira de uma série de atores nos Estados Unidos que levaram às crises gêmeas de 2008, a partir do problema dos subprimes americanos, e em 2011 a crise das dívidas soberanas sobretudo na Europa mediterrânea”, afirma o diplomata.

Com seguidas crises em alguns países da Europa, o autor do livro “Desglobalização: crônica de um mundo em mudança” diz que chefes de Estado passaram a participar de reuniões da União Europeia com postura diferente: em vez de defender uma Europa unida, o objetivo era salvar o seu próprio país da insolvência. De acordo com Troyjo, as nações tendem a progredir quando realizam mais trocas internacionais do que quando se fecham, de modo que um desempenho insatisfatório da economia pode inverter esse aparente processo de desglobalização.

“A pergunta é quanto tempo isso vai durar. Se é uma tendência mais longa, se o cinismo ou interesse individual vão prevalecer sobre a possibilidade de integração, ou se, pelo contrário, essa busca por políticas mais nacionalistas vai levar a um subdesempenho das economias”, diz Troyjo.

Na avaliação do diplomata, os problemas do Brasil, neste momento, são mais internos do que externos. Mesmo que os Estados Unidos assumam uma postura mais fechada, o País tem outras possibilidades de comércio, como um possível acordo entre o Mercosul e a União Europeia, além de intensificar as exportações de commodities agrícolas e de minerais para as ascendentes economias do sudeste asiático.

“O cenário não é necessariamente ruim. O problema é dentro da caverna: continuamos engalfinhados numa crise política, moral e policial. E não temos estratégia. O Brasil confunde o combate à corrupção e o ajuste fiscal como elementos estratégicos. Mais do que estratégicos, eles são instrumentos fundamentais, como é a saúde para um indivíduo. O Brasil não tem estratégia e não está com boa saúde”, avalia Troyjo.

Na entrevista, o diretor do BRICLab da Universidade de Columbia também comenta as relações entre China e Estados Unidos, o futuro dos Brics, o Mercosul e as reformas estruturais da economia brasileira.

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