Fechar
Play Video

Brasil precisa formar líderes para incentivar o empreendedorismo e resolver os grandes problemas nacionais

DEBATEDORES | Silvio Meira

O Brasil não tem estratégias definidas para tratar os grandes problemas nacionais, o que dificulta o estabelecimento de políticas públicas para inovação, empreendedorismo e pesquisa e desenvolvimento científico.

É o que analisa o professor associado da Escola de Direito da FGV-Rio, Silvio Meira, em entrevista conduzida por Humberto Dantas para UM BRASIL. Ele citou como exemplo o semiárido no Nordeste, que passa pela maior seca em 100 anos – um problema que não se resolve, mas que pode ser tratado com um conjunto de políticas e estratégias para viabilizar uma economia naquele ambiente, a exemplo do que ocorre na Austrália e em Israel.

Para o professor, sem explicitar as estratégias, não é possível gerar políticas, alianças e investimentos privados – porque não existe inovação apenas como política pública em quase nenhum lugar no mundo. “É quase impossível fazer, até porque é um ente econômico, na maioria dos casos. Mas aqui ao invés de tratar o problema, fingimos que ele não existe ou apenas mitigamos as consequências da existência dele.” Meira explicou que os esforços nacionais de qualquer país para resolver grandes desafios incluem investir para criar primeiro a base de conhecimento (pesquisa e desenvolvimento), depois disseminar conhecimento (educação), e por fim incentivar processos de criatividade, inovação e empreendedorismo que vão inserir a solução no mercado.

Questionado sobre como envolver a academia nesse processo, o professor frisa que a falta de problemas ou estratégias definidas dá o direito ao pesquisador de pesquisar o que quiser. Com isso, cria-se a dificuldade de que o apurado naquele ambiente seja direcionado de fato para solucionar problemas reais. “É importante notar que no contexto brasileiro, a maioria de toda pesquisa feita em todas as áreas é completamente irrelevante. Se não é usada para fazer mudanças na economia e na sociedade, aqui ou em outro lugar, e se não existe como referência a ser usada por outros pesquisadores, é porque é irrelevante”, ressaltou.

Para mudar esse cenário, é importante formar líderes antes de pensar em formar empreendedores. E quem cria o líder é o contexto onde ele existe. “É preciso habilitar as pessoas para fazer escolhas e tomar decisões, sabendo quais riscos estão correndo. Sem isso, é impossível ter empreendedorismo efetivo, de bom impacto. O Brasil não tem esse processo, nem lugares para formar esse pessoal. Nem vai ter no curto prazo”, frisa.

Apesar de o brasileiro ser apontado em pesquisas como um povo empreendedor, para Meira há diferenças entre empreender por necessidade e por oportunidade. No primeiro caso, ele empreende para sobreviver – porque perdeu emprego ou não tem habilidades exigidas, mas é de baixo impacto (não gera empregos nem paga impostos, porque a maioria vive na informalidade). Já o empreendedorismo de oportunidade gera trabalho, é de alto impacto e é ele quem vai pagar imposto.

Esse debate é uma realização do UM BRASIL em parceria com o Laboratório de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (LAB FGV), entidade estudantil com foco em modelar e analisar políticas públicas e, com isso, auxiliar órgãos públicos em sua gestão interna e na prestação de seus serviços. Veja também, em entrevista da mesma série, um debate entre especialistas sobre como inovar no setor público envolve mudança de postura organizacional.

Mais Vistos