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A corrupção tornou-se o centro da crise mais contemporânea brasileira

DEBATEDORES | José Álvaro Moisés

Moisés explica, em entrevista ao UM BRASIL, que, para esse cenário mudar, é preciso, além de leis, instituições, processos e punição, que a sociedade tenha mecanismos pelos quais ela possa se apropriar do conhecimento sobre esse fenômeno e começar a mudar a cultura política.

Uma das formas de disseminar o conhecimento é proporcionar que qualquer pessoa possa acessar informações sobre a corrupção. Foi então que surgiu a Corrupteca, um projeto cujo objetivo é produzir uma ferramenta analítica que permita a quem tiver interesse poder pesquisar o fenômeno da corrupção.

“Entendemos que era preciso criar uma ferramenta analítica que ao mesmo tempo permitisse essa possibilidade que pessoas, do público em geral, estudantes, mas principalmente jornalistas e pesquisadores, pudessem aprofundar a percepção, o conhecimento e, sobretudo, o exame das implicações da corrupção no Brasil e na maior parte das sociedades onde isso é muito forte”, diz o cientista político.

Lançada com 90 mil itens, hoje a ferramenta reúne 8 milhões de itens e permite o acesso a bibliotecas de mais de 5,7 mil universidades do mundo inteiro, além do arquivo do jornal O Estado de S. Paulo, do Senado Federal brasileiro, do Congresso americano, da biblioteca nacional da França, e também de jornais espanhóis que tratam do tema e da implicação da corrupção na Espanha e na América Latina.

Moisés comentou ainda sobre pesquisas conduzidas por ele, desde a década de 1980, na Universidade de São Paulo, sobre a cultura política dos brasileiros. “Quando se pega o tema corrupção, três coisas interessantes e intrigantes aparecem: quando se trata a corrupção dos políticos, do sistema e dos partidos, perto de mais de 80% é contra. E acha que é problema seriíssimo e tem de ser enfrentado. Na mesma pergunta, mas em relação aos brasileiros – não são mais os políticos, os sistemas, mas sim os brasileiros – cai para 60%. E quando são feitas as mesmas perguntas, se você estivesse no lugar de um político para superfaturar uma obra, nomear parentes, desviar recursos etc. os entrevistados são muito lenientes consigo mesmos. Não é a maioria, mas é um volume grande de gente que diz que também faria”, relata o especialista.

De acordo com ele, para a mudança acontecer, em primeiro lugar as lideranças – não só a política – mas as religiosas, culturais e educacionais devem ser capazes de, por meio de próprio exemplo, apontar caminhos novos e indicar que é possível “cuidar dos interesses públicos no Brasil sem meter a mão nas coisas que estragam esse projeto”. “Esse processo de mudança da cultura é demorado e depende muito de duas coisas absolutamente centrais: esse exemplo é que as instituições comecem a mudar seu comportamento”, aponta.

Moisés também observou que o Brasil vive uma crise de liderança. Para que o país forme mais líderes – especialmente os jovens, capazes de pensar o país de outra maneira, mais inovadora – é preciso mudança também. “Temos hoje um lastro na sociedade que quer outra maneira de pensar a sociedade e pensar as relações. Não só as pessoais, as sociais, uma liberdade maior em várias áreas do comportamento, mas também outra maneira de entender a função do governo, do serviço público e pessoas que possam servir essas instituições”, diz.

Um reflexo é o problema de representação, no qual a sociedade não se sente bem representada nas instituições que deveriam representá-las, particularmente os partidos e o Congresso. “Todas essas são faces diferentes da crise”.

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