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Burocracia

dez 08, 2017

UM BRASIL correaliza evento sobre mudanças do papel do Estado

DEBATEDORES |

Foi realizado nesta sexta-feira (8/12/), o “II Fórum Estratégias para o crescimento – A mudança do papel do Estado”. O evento é uma parceria UM BRASIL e FecomercioSP, em conjunto com o Columbia Global Centers | Rio de Janeiro, braço da Universidade Columbia; a Escola Brasileira de Administração Pública de Empresas (Ebape), a Escola Brasileira de Economia e Finanças (EPGE) e o Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV); e a Revista Voto. A segunda edição brasileira do evento também contou com debates no dia anterior (7) no Rio de Janeiro. A atuação do governo e das instituições em face das mudanças políticas e econômicas vividas no Brasil e globalmente pautou as apresentações e discussões.

Durante o painel “A indústria brasileira na era digital”, o ex-secretário de Política Econômica e professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), Marcio Holland, afirmou que “a indústria brasileira está na lanterna em comparação com o resto do mundo”.

Para a presidente para América do Sul da Schneider Electric, Tania Cosentino, a reserva de mercado atrasou o Brasil durante a década de 1980 e, por isso, o País não se beneficiou da terceira revolução industrial, diferentemente dos concorrentes. “O mundo está em constante transformação e a gente precisa ter coragem para se reinventar ao longo dos anos, fomentando educação, pesquisa e desenvolvimento”, explica.

A empresária afirma que a inovação da indústria 4.0, também chamada de Quarta Revolução Industrial, não requer investimentos brutais, e a indústria pode, por exemplo, incorporar softwares à produção. Ela destaca que a inovação e o conhecimento vêm de todos os lugares, e “a indústria 4.0 pode habilitar o Brasil a ocupar novos patamares, dando competitividade global à indústria brasileira”, diz.

Ricardo Rittes, vice-presidente Financeiro e de Relações com Investidores da Ambev, lembra que todos os processos devem girar em torno do consumidor. “Todos os dias os consumidores decidem que produtos vão consumir. Por isso, temos que prestar muita atenção para saber como chegar no consumidor. A previsibilidade é importantíssima para a inovação”, explica.

O vice-presidente da Whirpool, Armando Valle, ressaltou que trabalhar buscando inovação é fundamental para a empresa que atua no setor de eletrodomésticos. Contudo, as pesquisas precisam ter prioridades. “Identificar o que se quer com inovação não é fácil. Todo ano é preciso tomar decisão sobre onde você coloca o seu dinheiro”, disse Valle. “Fácil é inovar com US$ 1 milhão. Difícil é vender um refrigerador por R$ 900”, analisou.

O vice-presidente da Ford, Rogelio Golfard, apontou que o desafio atual das empresas é manter uma cultura de inovação. Além disso, citou que o setor industrial como um todo está sob pressão para inovar. “A competição está em nível altíssimo”, concluiu Golfard.

O vice-presidente da Ford também falou que o País precisa decidir o que vai fazer de sua indústria, que, segundo ele, “precisa de uma política de Estado e de uma visão clara de qual são os papéis e setores de atuação”.

Entre os entraves encontrados pela indústria estão a infraestrutura ineficiente e a falta de qualidade na educação. Além desses problemas, existe a complexidade do sistema tributário e a burocratização.

Corrupção

No painel seguinte, intitulado “Corrupção e transparência no Brasil e na perspectiva global”, os palestrantes comentaram os desvios de ética nos setores público e privado no País.

O professor-adjunto da School of International and Public Affairs, da Universidade Columbia, Paul Lagunes, disse que o combate à corrupção no Brasil mudou bastante nos últimos anos e citou que uma pesquisa recente da organização Latinobarômetro indica que 80% da população brasileira se preocupa com o assunto.

“Isso não significa que a corrupção é maior no Brasil [do que em outros países da América Latina], mas aponta que os cidadãos estão mais preocupados com o problema”, comentou Lagunes.

O professor da Universidade Columbia também disse que o caminho para superar altos índices de corrupção é aprender com casos similares. “Hoje, o Uruguai quase compete com os países menos corruptos do mundo. Há esperança se olharmos para nações que passaram por situação parecida”, afirmou.

O sócio da Prática de Forensic Services da PwC Brasil, Leonardo Lopes, afirmou que a diminuição da corrupção passa pela criação e aplicação de mecanismos de punição. O especialista citou como exemplo a Lei Seca, que diminuiu o número de motoristas embriagados ao volante.

“A simples sensação de que você pode ser pego tem um efeito relevante para a mudança de comportamento. São necessários mecanismos de detecção e punição. É um ciclo: regras, mecanismos de detecção e punição para os erros. Assim, o próximo pensará duas vezes antes de passar por cima da lei”, afirmou Lopes.

O presidente-executivo do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO), Edson Vismona, ressaltou que a cultura de corrupção cria um ambiente que propicia que os cidadãos também atuem de maneira antiética. “A sociedade corrupta não ajuda o cidadão”, afirmou Vismona.

Entretanto, o presidente-executivo da ETCO diz que o País passa por uma mudança de comportamento. “As novas gerações, essas que estão chegando ao mercado de trabalho, têm uma postura ética diferente, inclusive como consumidores. Estamos vivendo um cenário favorável para esse processo de mudança comportamental”, comentou.

Também nesse painel, o diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal, Felipe Salto, apresentou os objetivos da organização e disse que a abertura dos dados dos gastos do governo é uma das ações para proporcionar mais transparência ao debate econômico do País e “ajuda a fazer o desafio do ajuste fiscal não se perder”.

O ministro da Transparência e Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário, falou sobre a Lei nº 12.846, conhecida como “Lei Anticorrupção”, que surgiu exatamente na época da Operação Lava Jato. A lei prevê a responsabilização de empresas envolvidas em corrupção e o uso de um novo mecanismo já usado mundialmente que é a colaboração de empresas, os chamados acordos de leniência.

Rosário diz que embora a lei determine que a CGU é o órgão responsável para o fechamento desses acordos, a Advocacia-Geral da União (AGU), Ministério Público Federal (MPF) e Tribunal de Contas da União (TCU) podem inviabilizar esse processo. “O instrumento ainda não conseguiu decolar da maneira como esperávamos. Não há segurança jurídica para isso”, diz. A ideia, de acordo com o ministro, é buscar os órgãos envolvidos para a mesma mesa.

Para Rosário, a falta de credibilidade que esse círculo vicioso da corrupção gera na sociedade é o ponto mais negativo. “Uma das consequências da corrupção, talvez a mais dura, é que as pessoas deixam de se sentir parte daquela sociedade porque não acreditam no todo. Acreditam que um grupo diferenciado vai ter benefícios e as pessoas passam a lutar por pequenos grupos”, concluiu.