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Polarização transbordou para a convivência cotidiana

DEBATEDORES | Felipe Nunes

Após um período eleitoral conturbado em 2022, o governo Lula conseguiu romper o otimismo inicial, mantendo a própria base e avançando para cima do eleitorado de Jair Bolsonaro. Para Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest Pesquisa e Consultoria, a escolha do presidente de focar na agenda econômica (em vez da identitária) e a sensação de queda nos preços dos alimentos são dois fatores que justificam isso.

Contudo, Nunes adverte, para além da pauta econômica, os temas de valores e costumes — que dividem a sociedade — transpassam as eleições e afetam a convivência social em sua amplitude de forma mais intensa do que no passado. “Se o Lula escolher o identitarismo, o costume, ele vai dividir as pessoas. Alguns elementos são insuportáveis para uma parte da sociedade”, frisa.

“Estamos vendo um fenômeno que chamo de calcificação política na sociedade brasileira. Temas ligados a valores e costumes dividem o povo em duas visões de mundo muito diferentes, as quais não se encerram mais nas eleições”, defende. “Começamos a ver empresas, famílias e escolas diante da função de lidar com um padrão de comportamento que não estavam acostumadas. Várias marcas já sofreram com isso.”

Na gravação, Nunes também traça as transformações recentes pelas quais passaram os moldes da polarização brasileira: começou política, nos anos 1990, com a disputa clara entre dois partidos (PT e PSDB); em 2006, tornou-se social, com a diferenciação entre Nordeste e Sul, e ricos e pobres. E, mais recentemente, virou afetiva. “Em 2018, a polarização, que era política e social, virou afetiva, quando o ‘meu’ adversário passa a ser o meu inimigo, alguém que eu não tolero. Os níveis disso começaram a escalonar em 2018 e chegaram ao ápice em 2022. Temos visto uma afetividade muito negativa”, explica.

Base do governo no Congresso

Nunes ainda pondera que o fato de que o sistema político brasileiro permitir que lideranças políticas tenham mais liberdade em relação a seus partidos facilita a negociação intrapartidária pelo governo. “O PP e o Republicanos não entraram para o governo, mas há um ‘pedaço’ nordestino desses partidos que entrou. No fundo, é a pauta econômica que está em foco total, e isso permite que o governo consiga atrair uma parte dos deputados, que tem base na direita, para votar esse tema.”

A entrevista ao Canal UM Brasil — uma realização da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) —, integra a série Brasil com S, em parceria com revista  Exame.

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