O maior cabo eleitoral em um Brasil dividido é o medo
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- Na opinião de Felipe Nunes, professor na FGV e CEO da Quaest, no Brasil o medo tomou o lugar de programas e projetos geradores de unidade, que tiveram o seu auge nas últimas décadas.
- Em 2018, a polarização assume um novo caráter, atingindo o seu pior nível às vésperas das eleições presidenciais de 2022. “É a polarização afetiva, quando eu passo a achar que só eu estou certo, que você está errado e que, portanto, nós não devemos morar no mesmo país, que não devemos ser a mesma coisa”, explica.
- O País entra, agora, em um novo ciclo eleitoral. Um momento que, segundo Nunes, deve servir para que o brasileiro nutra esperanças pelo fim da violência política, por um ambiente institucional mais seguro e pela renovação.
Há dois ciclos eleitorais, a rejeição ao “outro” é o que alimenta a unidade em torno de um político. É o que explica Felipe Nunes, professor na Fundação Getulio Vargas (FGV), CEO da Quaest e autor do livro Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros (Globo Livros), lançado em novembro do ano passado.
Em entrevista à Revista Problemas Brasileiros e ao Canal UM BRASIL — ambas realizações da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) —, Felipe Nunes comenta o dilema da busca por consensos em uma nação dividida.
O consenso em torno do medo
O maior cabo eleitoral. “Num lugar onde se tem identidades tão múltiplas, só um elemento que pode juntar essa turma: o medo de o outro lado tomar o poder e, de alguma maneira, prejudicar você. E é isso que os políticos estão fazendo a cada novo ciclo eleitoral”, explica Nunes.
Brasil antes da polarização. Na opinião do especialista, o medo tomou o lugar de programas e projetos geradores de unidade, que tiveram o seu auge nas últimas décadas. Ele cita como exemplo a união em torno da pauta da luta contra a inflação, na década de 1990. “Fomos adiante e construímos o [Plano] Real, um dos grandes legados da democracia brasileira”, lembra.
Consenso deu lugar ao medo. Já nos anos 2000, o País se reuniu em torno de outra situação mobilizadora: a miséria exagerada e a necessidade de reduzir as desigualdades. Mais uma vez, o Brasil topou essa ideia e construiu programas, lembra Nunes. “Os debates eram proativos. Hoje, dada essa alta fragmentação, o que a gente descobriu é que só há um jeito — no medo”, conclui.
A evolução da polarização política no País
Mudança de rumo. O Brasil de 1994 ou de 2002, que alcançou esses consensos razoáveis, perdeu-se nas décadas seguintes, explica o CEO. “O mesmo país que votou em um projeto que gerava certo consenso não se perde de maneira unânime, mas passa a produzir divisões”, explica.
País dividido. Já em 2014, explica Nunes, há um processo de conflito político em que a polarização partidária se torna social. “Você começa a ver com mais clareza o voto de homens e mulheres, de ricos e pobres, do Norte e do Sul do Brasil”, destaca.
Polarização afetiva. Em 2018, essas divisões assumem um novo caráter, atingindo o seu pior nível às vésperas das eleições presidenciais de 2022. “É a polarização afetiva. Isto é, quando eu passo a achar que só eu estou certo, que você está errado e que, portanto, nós não devemos morar no mesmo país, que não devemos ser a mesma coisa”, explica.
O Brasil está nas nossas mãos
A hora da mudança. O País entra, agora, em um novo ciclo eleitoral. Um momento que, segundo Nunes, deve servir para que o brasileiro nutra esperanças pelo fim da violência política, por um ambiente institucional mais seguro e por uma renovação que, de um lado, encontra resistência no status quo e, de outro, tem medo da mudança.
Renovação bate à porta. “O Brasil está no meio disso. Não é à toa que a gente está em 2026 discutindo se não chegou a hora de a política fazer uma mudança geracional, se não chegou a hora de novos políticos — e, inclusive, gente que não está na política — assumirem a responsabilidade de tocar as agendas do futuro”, reflete.
Potencialidades. Nunes acredita que a possibilidade de mudança está nas mãos do próprio povo brasileiro. “Essa história de que a gente é vira-lata tem que ficar para trás. Este é um país realmente com grandes potencialidades. E elas, se bem encaminhadas, podem fazer com que a gente construa um país extraordinário”, defende o CEO.
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