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Educação e Cultura

A infraestrutura invisível da educação 

Cristieni Castilhos
Cristieni CastilhosCEO da MegaEdu
Publicado em: 9 de setembro de 2026

Por Cristieni Castilhos, CEO da MegaEdu*

No Brasil atual já é possível saber exatamente quando um benefício foi pago a um cidadão, quando uma vacina foi aplicada ou quando uma transferência bancária foi concluída. Porém, nas escolas públicas, ainda não conseguimos identificar, em tempo ágil, quais alunos deixaram de frequentar a escola, que nota cada aluno recebeu na prova, ou, ainda, saber o histórico completo de um estudante quando ele muda de cidade ou estado. Essa realidade precisa e pode mudar.  

Tivemos um avanço importante nos últimos anos no desenvolvimento de infraestruturas públicas digitais capazes de transformar a vida da população. Como o Pix que mudou a forma como milhões de brasileiros realizam pagamentos, o Gov.br, uma ferramenta que simplificou o acesso da população a centenas de serviços públicos, e o DataSus na área da saúde. Na educação, porém, essa jornada ainda está por ser construída.

Isso ajuda a explicar, por exemplo, por que tantas oportunidades de aprendizagem continuam sendo perdidas antes que o poder público consiga agir. Já passou da hora de o Brasil investir em um “Prontuário do Estudante”, à semelhança do que a saúde fez ao integrar os dados dos pacientes nacionalmente. Algo tão simples poderia ter benefícios claros para as famílias, os alunos, professores, diretores e toda a comunidade escolar. A começar pelo momento da matrícula de uma criança na rede, quando a família terá a possibilidade de visualizar as vagas disponíveis perto de sua casa, sem precisar andar de escola em escola. O professor que vai saber o que o estudante aprendeu ou não na escola anterior, no ano anterior. O diretor perde menos tempo tendo que registrar a matrícula manualmente. 

Ter essa infraestrutura de dados pode evitar, ainda, que a família preencha os mesmos dados repetidamente em diferentes serviços do governo, cruzando informações qualificadas para viabilizar políticas integradas. E pode permitir novos ganhos, como a emissão digital de uma carteira nacional do estudante, conectados com oportunidades de trabalho, saúde, assistência e outros benefícios associados. 

Gestores, escolas e professores terão a oportunidade de acessar a frequência dos estudantes às aulas, transformando esse indicador em uma ferramenta poderosa para ações contra a evasão escolar, reforço na aprendizagem e até facilitar o acesso dos alunos a políticas públicas de ingresso no ensino superior, como hoje já é feito em uma iniciativa promissora do Ministério da Educação como a pré-inscrição do ENEM facilitada. 

Temos duas boas notícias: a primeira é de que a tecnologia para fazer isso é simples e já aprendemos com outros setores e países. A segunda é que o Sistema Nacional de Educação previu a criação da Infraestrutura Nacional de Dados da Educação (INDE), que representa uma janela histórica para avançarmos na criação de uma Infraestrutura pública digital da educação pública, o nosso “prontuário educacional”. A questão hoje não é falta de dados na área da educação, mas a ausência de conexão entre as informações que temos disponíveis, para garantir que o dado chegue na hora certa na mão de quem precisa dele para agir. Hoje, cada rede de ensino coleta e organiza informações e dados educacionais de maneiras distintas, com sistemas que raramente se conversam. É como se os gestores públicos olhassem pelo retrovisor na hora de tomar suas decisões, sem que essas informações acompanhem o ritmo real da vida escolar

Quando o dado existe, é confiável e chega a tempo de quem decide, a tecnologia ganha capacidade real de qualificar a política pública em todo o seu ciclo, da formulação à avaliação. Esse ganho é ainda mais concreto no nível subnacional, onde estados e municípios formulam e operam o dia a dia da educação, muitas vezes sem saber ao certo onde estão os estudantes da sua rede que mais precisam de apoio.

Em um país marcado por desigualdades educacionais históricas, a capacidade de tomar as melhores decisões a partir de um conjunto de informações qualificadas deixa de ser apenas uma questão operacional e se apresenta como uma condição para ampliar oportunidades.  

O debate sobre a transformação digital na educação costuma se concentrar em torno de ferramentas, plataformas e conectividade. Mais recentemente falamos de como a inteligência artificial pode mudar a educação, mas o primeiro passo é construir uma infraestrutura capaz de organizar os dados para futuramente transformá-los em capacidade de gestão e coordenação. Sem ela, continuaremos acumulando informações sem gerar inteligência suficiente para apoiar estudantes, escolas e redes de ensino. Sem ela, o sistema educacional seguirá olhando para o número de matrículas ao invés de se preocupar também com as trajetórias de cada um dos seus estudantes. E seguiremos sem alavancar o potencial da inteligência artificial, pois não há IA quando os dados não existem.

O Brasil chega a essa discussão em um momento particularmente favorável, pois já demonstrou que consegue construir infraestruturas públicas digitais capazes de transformar setores inteiros. E hoje também dispõe de um marco institucional e regulatório que cria condições necessárias para avançar na integração de dados na Educação.  

O desafio agora é o próximo governo priorizar essa oportunidade e transformá-la em capacidade real de implementação. Afinal, todas as políticas educacionais passam por conhecer bem o aluno. O ensino personalizado só existe se tivermos aptidão de compreender, acompanhar e apoiar cada aluno de maneira adequada às suas necessidades. Poucas decisões serão tão estratégicas e decisivas para o futuro do Brasil quanto esta. 

Cristieni Castilhos é fundadora e CEO da MegaEdu, organização sem fins lucrativos com a missão de conectar todas as escolas públicas do Brasil à internet de qualidade.

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