Grandes transformações pedem lideranças bem-preparadas
Jessika Moreira, Cristina Castellan e Marco Camargo*
Nenhuma grande transformação acontece sozinha. Toda conquista relevante nasce da união entre boas ideias, planejamento e pessoas que enxergam além do imediato. Não por acaso, por trás de toda política pública que transformou vidas, de toda reforma que modernizou um serviço essencial, de todo programa que beneficiou quem mais precisava, há pessoas que mantiveram o foco e a ambição quando o ambiente pressionava em sentido contrário. São lideranças que formaram equipes competentes e criaram condições para que os resultados pudessem se consolidar ao longo do tempo. Uma soma de esforços em torno de um objetivo comum.
Temos bons exemplos de como grandes transformações dependem de lideranças bem-preparadas e capazes de atuar coletivamente, com visão sistêmica e de longo prazo, mesmo em ambientes de incertezas. O sucesso do Plano Real, em 1994, elaborado e liderado pela equipe do Ministério da Fazenda, é um exemplo disso: a mudança ocorreu por meio de uma atuação coordenada, baseada em planejamento e embasamento técnico, de uma equipe altamente qualificada, combinando rigor analítico e execução consistente para enfrentar um dos maiores desafios econômicos da história do Brasil.
A criação do Pix, que reposicionou recentemente o Brasil na fronteira da inovação em serviços financeiros, é mais um exemplo. O sistema de pagamentos brasileiro foi profundamente reestruturado a partir de uma combinação de visão estratégica, domínio técnico e capacidade de coordenação.
A redução do desmatamento em diferentes períodos da história recente do país também ilustra esse tipo de impacto, demonstrando como lideranças públicas qualificadas são capazes de gerar impactos perenes ao combinar conhecimento técnico, articulação institucional e mecanismos regulatórios eficientes.
A literatura sobre organizações de alto desempenho, tanto no setor privado quanto no público, mostra de forma consistente que resultados excepcionais em ambientes incertos e complexos dependem de líderes e de redes de líderes, que combinam coordenação, disciplina e visão. São pessoas que orientam sua atuação por evidências e mobilizam a energia do sistema para algo maior do que si mesmos. No setor público, esse “algo maior” tem nome: bem comum.
Segundo o artigo “Uma revisão meta-analítica das pesquisas sobre impacto da liderança: estudos experimentais e quase-experimentais”, publicado na revista científica The Leadership Quarterly, o impacto das lideranças tende a ser ainda mais decisivo no setor público do que no setor privado. Diferentemente das empresas, que costumam operar apoiadas em estruturas mais consolidadas, processos mais estáveis e incentivos organizacionais capazes de garantir certa continuidade independentemente de quem ocupa os cargos de comando, os governos dependem de forma muito mais intensa da habilidade de coordenação, articulação, mobilização, diálogo, execução e visão estratégica de suas lideranças.
Alguns territórios e suas experiências locais mostram sinais de evolução na atração e qualificação de suas lideranças. Desde 2019, pelo menos sete governos estaduais implementaram processos de seleção por competências para seus cargos de liderança, como o Transforma Minas (MG), o QualificaRS (RS) e o LiderAção (GO). Outros estados e municípios brasileiros também estão investindo na formação continuada de lideranças, reconhecendo que a seleção de bons quadros para o serviço público é apenas parte do desafio.
Uma pesquisa Datafolha de 2025 realizada a pedido do Movimento Pessoas à Frente reforça que a sociedade brasileira já entendeu a importância de olhar para quem são as pessoas que representam o Estado. 89% dos brasileiros defendem processos de pré-seleção de lideranças; 93% defendem a gestão de desempenho de lideranças de forma regular e constante, com consequente recompensa e responsabilização; e 92% acreditam no papel fundamental dessas lideranças para o desenvolvimento profissional das equipes que coordenam. Os dados indicam um consenso social robusto em torno de algo que a agenda política ainda trata como marginal.
O debate sobre a modernização do Estado ganhou tração nos últimos tempos, e as eleições deste ano abrem uma janela de oportunidade para que o Brasil reflita sobre suas demandas e prioridades para o novo ciclo de gestão e gestores. Cobrar propostas concretas para uma agenda de aprimoramento do Estado é uma responsabilidade de todos que acreditam que instituições mais capazes são condição essencial para um país mais justo. Grandes desafios exigem grandes lideranças, que precisam ser cultivadas com intenção, método e compromisso com o impacto público.
*Jessika Moreira
Diretora-executiva do Movimento Pessoas à Frente
Cristina Castellan
Diretora de Lideranças na Fundação Lemann
Marco Camargo
Diretor de Lideranças na Motriz
Este conteúdo é fruto de uma parceria editorial com o Movimento Pessoas à Frente — uma organização suprapartidária e plural, composta por mais de 200 pessoas com diferentes perspectivas políticas, sociais e econômicas, comprometidas com o aprimoramento das políticas de gestão de pessoas no setor público.

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