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Sociedade

A Enel e a prestação de serviços públicos

Publicado em: 12 de fevereiro de 2026

Por Alexsandra Ricci e José Goldemberg*

Empresas prestadoras de serviços públicos, como eletricidade, água e transporte coletivo, são peças centrais da ação governamental e têm impacto direto sobre a vida econômica das cidades. Não por acaso, o debate sobre qualidade, custo e gestão desses serviços ganha força em contextos eleitorais e diante de crises recorrentes.

No Estado de São Paulo, o fornecimento de energia elétrica passou por diferentes modelos de gestão ao longo do último século. Introduzido pela empresa canadense Light em 1928, o sistema foi estatizado em 1979, sob o nome de Eletropaulo, e privatizado em 1998. Em 2018, a Enel assumiu a concessão e, desde então, a sua atuação tem sido alvo de críticas, principalmente após apagões associados a eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes.

Uma análise técnica do desempenho da concessionária, no entanto, aponta um cenário mais complexo do que o debate público costuma apresentar. Em condições climáticas normais, os indicadores de qualidade do serviço melhoraram significativamente ao longo do tempo. O DEC — que mede a duração média das interrupções — caiu de 25 horas anuais, em 1985, para cerca de 7 a 8 horas, em 2025. Já o FEC — número médio de interrupções por consumidor — passou de 15 a 20 para 5 a 6 no mesmo período, mesmo com o aumento do número de usuários, que saltou de 4,5 milhões para aproximadamente 8 milhões.

Apesar desses avanços, a Enel enfrenta dificuldades relevantes na gestão de crises provocadas por temporais intensos, com rajadas de vento sem precedentes históricos. Nessas situações, a demora no atendimento e a falta de informações claras agravam prejuízos para a população e para o setor produtivo, em especial o Comércio, que sofre perdas diretas de mercadorias e faturamento.

O problema central parece estar menos na infraestrutura e mais na comunicação com o consumidor. Embora a empresa utilize canais digitais para alertas preventivos, há espaço para aprimorar a transparência sobre causas das interrupções, áreas afetadas e prazos estimados de restabelecimento — medidas que ajudariam empresas e famílias na redução de danos.

Adicionalmente, mecanismos de compensação mais ágeis para consumidores de menor renda poderiam reduzir os impactos sociais e econômicos dos grandes apagões. Tais iniciativas, além de razoáveis, antecipariam exigências da nova regulamentação da Aneel, que reforça o dever de informação e prevê compensações automáticas em caso de descumprimento dos limites regulatórios.

Diante das mudanças climáticas e da crescente dependência da energia elétrica para o funcionamento dos negócios, decisões sobre concessões exigem análise técnica cuidadosa, sob o risco de soluções precipitadas agravarem, em vez de resolverem, os problemas existentes.

Artigo originalmente publicado no jornal Diário do Comércio em 4 de fevereiro de 2026

* José Goldemberg é ex-ministro do Meio Ambiente e presidente do Conselho de Sustentabilidadeda Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP); Alexsandra Ricci é assessora do mesmo conselho. 

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