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País não pode esquecer dos que não tiveram acesso à educação

DEBATEDORES | Eda Luiz Denis Plapler

A ideia de um novo modelo escolar passa por pensar em como tornar o ambiente de aprendizado mais inclusivo e interligado à comunidade em que está inserido, de modo que o aluno também possa ter espaço para escolher parte do que deseja aprender. Contudo, quando se fala em educação, não se trata de uma pauta direcionada apenas às gerações mais jovens, uma vez que parte considerável da população teve negligenciado o seu direito de frequentar os bancos escolares, o que se configura como um compromisso inacabado do Estado brasileiro.

Essas são algumas reflexões do debate promovido pelo UM BRASIL com o criador do Portal do Educador, Denis Plapler, e a diretora do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) – Campo Limpo, Eda Luiz.

No encontro, eles reforçam que, além de 15 milhões de analfabetos, a educação no Brasil é caracterizada pela baixa qualidade, que, inclusive, extrapola a questão escolar, afetando o desenvolvimento humano e social da pessoa.

“O ser humano que não passou pela escola se sente humilhado, desprestigiado, menor. Escutar uma senhora de 59 anos, que educou a família e lutou com baixo salário, quando volta a estudar e consegue escrever o nome, ela fala: ‘Agora, eu sou gente’. Isso é muito forte, pois até então como é que se sentia essa pessoa por não ter passado pelos bancos escolares?”, questiona Eda.

A diretora do Cieja – Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, complementa dizendo que é hora de pensar em como “esse grande número de pessoas que não tive direito à educação” pode contribuir com a Nação. “Como é que um país discute e cresce sem que todos participem? É notória e visível a mudança quando eles vêm para a escola, na educação de jovens e adultos, e são aceitos e acolhidos. Quando a gente consegue fazer uma educação significativa, há mudança não só para o estudante, mas também para o seu entorno”, assegura.

Sobre o assunto, Plapler acrescenta que o esforço educacional para aqueles que “ficaram para trás” trará benefícios para as gerações futuras. “Essas pessoas que você menciona que não tiveram o direito à dignidade, digamos assim, isso também acaba reverberando na escola, porque essas pessoas têm filhos e filhas que, muitas vezes, não são inseridos numa cultura letrada e não são inferiores por causa disso, mas sofrem consequências de uma diferenciação social-econômica no mercado de trabalho”, salienta.

Nova concepção escolar

De acordo com Plapler, uma nova escola possível, que se paute pela qualidade, ainda deve ocorrer em um ambiente físico, contanto que aproxime alunos, professores e comunidade. Ele diz que é função da escola entender o que faz sentido para os estudantes.

“Acredito que espaços de voz e de escuta são espaços de saúde, e as escolas precisam construir esses espaços mais democráticos, de relações mais horizontais, mais dialógicas, onde as crianças tenham espaço para estudar também a partir de seus desejos e interesses, porque ainda é inovador, no século 21, que a escola tenha coragem de perguntar ‘o que você quer estudar?’ ”, comenta.

Segundo ele, essa visão alternativa da escola passa por valorizar o professor. “Essa educação inovadora e democrática que tanto se fala não é para mudar o papel do professor, diminuir o seu protagonismo ou seu destaque. Acredito numa relação que não é centrada nem só no professor nem só no estudante. Então, vamos pensar sério nisso quando fizermos política pública para dar condições para que o professor possa ser esse agente capaz de fazer uma escola qualificada junto com a sua equipe e com a sua comunidade”, reforça.

Com sua experiência no Cieja, Eda avalia que as escolas no Brasil ainda são muito fechadas em si e que o caminho para aperfeiçoar o ambiente de ensino é por meio de parcerias, principalmente com serviços da comunidade do entorno. “Acredito muito numa formação em serviço, porque é aquela que vai resolver os seus problemas no dia a dia. Se for para estar numa escola todos os dias, tem que estar para saber resolver ou pelo menos minimizar os problemas. Por isso, as escolas poderiam acreditar mais em parcerias, pois de vez em quando se observa que se encontram muito isoladas”, analisa.

Promovido em razão do Dia da Educação, o debate foi realizado em parceria com o Centro Ruth Cardoso, a AlfaSol e o canal Futura.

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