Brasil só será grande quando periferia encontrar lugar ao sol
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O Brasil entrou no século passado com menos de 20 milhões de habitantes. Ao longo desse período, o País passou por uma explosão demográfica e, hoje, com uma população de 209 milhões, 85% vivem nas zonas urbanas. A economia, contudo, não foi capaz de providenciar condições adequadas em termos de infraestrutura, saneamento e emprego. Com isso, em consequência da desigualdade, surgiu um novo ator na sociedade brasileira que busca o seu lugar ao sol: a periferia.
É dessa forma que o diretor da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), diplomata aposentado e ex-embaixador do Brasil em Washington, Rubens Ricupero, sintetiza a transformação social que caracterizou o Brasil do século 20. “O maior desafio que a sociedade brasileira tem nesse século 21, com a estabilização do crescimento [populacional], é enfrentar de uma vez por todas a herança da desigualdade”, frisa, em entrevista ao UM BRASIL.
Segundo Ricupero, “é muito difícil encontrar nos anais históricos um exemplo de explosão urbana tão contundente” como a que houve no Brasil. Ele diz que a periferia é resultado da migração das pessoas do campo para as cidades e, como esse movimento ocorreu em um curto espaço de tempo, no qual a economia não pôde providenciar bons empregos, “boa parte das pessoas da periferia vive até hoje de forma precária”.
“A história brasileira, como a história da América Latina, só vai ter estabilidade quando essa periferia – as classes D e E – conseguir encontrar um lugar ao sol. O nosso grande desafio é de construir uma economia e uma educação que facilite isso, que isso se faça não de uma maneira traumática, mas de uma maneira gradual e harmônica”, aponta.
O diplomata aposentado não vê outra saída a não ser a educação como solução para combater a desigualdade no País. “Tenho a impressão de que [a educação] já começa a ser [prioridade]. Ainda não se traduziu em resultados concretos, mas não sou pessimista com a nossa capacidade de aprender com as nossas derrotas e problemas”, pontua.
Ele reforça essa avaliação rememorando o ano de 1994, quando o real foi instituído como moeda nacional no dia 1º de julho, ocasião em que Ricupero ocupava o cargo de ministro da Fazenda. “Naquele tempo se dizia que o brasileiro era geneticamente incapaz de ter uma moeda estável, porque fazia tanto tempo que tínhamos inflação, com a correção monetária, que havia um ceticismo invencível disseminado”. Apelidado do “sacerdote do real” pelo então presidente Itamar Franco, Ricupero diz que sua tarefa era de convencer as pessoas a acreditar que “não havia razão para o Brasil não ter uma moeda estável”.
“Acho que o mesmo está começando a ocorrer com a educação. Nós não chegamos lá ainda. Nós estamos discutindo muitas maneiras de melhorar a educação, mas estamos começando a ver um consenso que está emergindo, que depende da boa gestão, depende de valorizar o professor, depende não tanto apenas de jogar dinheiro na educação, mas utilizar bem esse dinheiro, dar estímulos”, avalia.
O ex-embaixador ainda salienta que a maior parte da população do País se concentra na periferia e que não se pode negligenciar o desafio de integrá-la à sociedade.
“A grandeza de um país não é a riqueza material, não é a riqueza bélica, o poderia das armas. A grandeza de um país é dar a todo cidadão, a toda mulher, a todo homem, a possibilidade de ser feliz, de ter uma vida digna. Se nós tivéssemos 209 milhões de brasileiros que tivessem uma vida digna, com um trabalho digno, o Brasil seria um grande país”, assegura Ricupero.

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