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Educação

out 15, 2018

Foco no desenvolvimento de competências, por Claudia Costin

DEBATEDORES |

Por Claudia Costin

Em setembro de 2015, o Brasil, junto com 193 outros países, aprovou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Entre esses objetivos, um específico trata da educação. Ele estabelece que iremos assegurar educação inclusiva, equitativa e de qualidade e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. Na prática, isso resulta em nos comprometermos, entre outras metas estabelecidas no documento, a garantir que, até 2030, nossos jovens concluam os ensinos fundamental e médio com aprendizados relevantes e efetivos e que ninguém seja deixado para trás.

Quando analisamos os dados referentes à cobertura e à qualidade da educação, no entanto, percebemos o quanto ainda temos que avançar nessa direção. Milhões de crianças e jovens, enfim, entraram para a escola, fato que deve ser celebrado, mas, infelizmente, ainda há cerca de 1,6 milhão de adolescentes de 15 a 17 anos sem acesso aos bancos escolares. E apenas 59% dos que estão matriculados até 19 anos conseguem completar o ensino médio.

Na educação infantil, há melhoras no acesso à pré-escola. Hoje, 92% das crianças com quatro e cinco anos estão matriculadas, num movimento que pode ajudar no nivelamento de diferenças de origem socioeconômica no desempenho escolar futuro. No entanto, quando olhamos para creches, o acesso é bem desigual: as crianças pequenas que integram os 25% mais ricos estão em muito maior número que os 25% mais pobres (que certamente necessitariam muito mais desse diferencial) nessa modalidade educacional.

Mas o pior desempenho ainda é na qualidade da educação. Demoramos muito para universalizar o acesso aos anos iniciais do ensino fundamental, o antigo primário. Em 1930, tínhamos apenas 21,5% das crianças na escola, enquanto a Argentina tinha 62%, e o Chile, 73%. Quase empatada conosco estava a Coreia, com 22%. No fim da década de 1960, a Coreia já havia universalizado o acesso, e nós ainda tínhamos só 40%, índice que subiu para 60% no fim dos anos de 1980. Essa baixa cobertura certamente impactou a aprendizagem das futuras gerações, já que é sabido que o tempo médio de escolaridade dos pais é extremamente importante para o sucesso escolar dos filhos. Esse dado se complica com a constatação de que ainda temos 11,8 milhões de analfabetos, muito embora parte importante deles se concentre entre os mais velhos, significando, portanto, um problema geracional, em que, embora privados do direito de aprender, esses brasileiros não necessariamente tenham grande impacto na aprendizagem dos mais jovens.

A qualidade da educação no Brasil vem evidenciando uma pequena melhora a cada edição da Prova Brasil para o quinto ano e, na última com resultados divulgados (2015), para o nono ano. Entretanto, quando se analisa o desempenho do País no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) de 2015, teste internacional organizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aplicado para jovens de 15 anos de 72 economias, das quais 70 tiveram seus resultados divulgados, o Brasil se posicionar muito mal. Tendo participado desde o ano de 2000, foi o país que mais avançou em Matemática entre 2003 e 2012, no entanto, parou de avançar na última edição e está em 66º lugar em Matemática, 63º em Ciências e 59º em Leitura e Interpretação de textos, uma condição claramente incompatível com o porte da economia brasileira.

A situação se torna particularmente complexa se considerarmos que vivemos em tempos do que se convencionou chamar de “Quarta Revolução Industrial” ou de “Futuro do Trabalho”.

Trata-se do fato de que a automação e a robotização se aceleraram com a perspectiva de uma extinção sem precedentes de empregos (inclusive aqueles associados ao trabalho intelectual). Os avanços da inteligência artificial e da “aprendizagem de máquinas” tornam o futuro muito incerto e terão forte impacto na educação se quisermos que as novas gerações estejam prontas para os eventuais novos postos de trabalho que devam surgir nesse contexto. Ora, tanto para enfrentar esse desafio (e outros dele decorrentes, como o populismo, fenômeno que está emergindo com força nos países em que a inteligência artificial mais deslocou trabalhadores) quanto para fazer face ao ODS-4, e não deixar ninguém para trás, precisaremos desenvolver competências novas nas escolas do País.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), na parte já aprovada no fim de 2017, contempla um bom conjunto delas. São as chamadas “competências do século 21”, entre as quais: resolução colaborativa de problemas, criatividade, empatia, persistência, resiliência e experimentação.

Se somarmos a elas a superação dos déficits de aprendizagem que já temos, o pensamento crítico e sistêmico, e o letramento digital e de dados (aprender a analisar dados e a decidir com base neles), teremos maiores chances de contar com novas gerações aptas a navegar no mundo incerto em que viveremos e com um Brasil certamente menos desigual.

*Claudia Costin é fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV)
Artigo publicado na revista Problemas Brasileiros, edição especial de setembro de 2018.