Os riscos do mercantilismo arcaico de Trump
Escrever sobre fatos correntes é imprudente. Analisar atos do mais imprevisível presidente dos Estados Unidos é um exercício temerário, mas que, em virtude da relevância das implicações para o mundo — e para o Brasil —, deve ser feito. Tentaremos analisar uma história que está a ser escrita agora, na velocidade das postagens em redes sociais. Inundar a opinião pública com decretos, declarações e ofensas é uma tática proposital. É impossível reagir a tudo. Tratarei apenas de um aspecto: o uso do comércio internacional como arma econômica, política e ideológica.
Em abril de 2025, foi anunciado um generalizado aumento de tarifas de importação para os parceiros comerciais do país. O fato de ter sido baseado na mais ridícula equação da história econômica não apaga as implicações do evento para a estabilidade das relações comerciais. O único critério era a existência de superávits ou déficits na balança comercial entre os Estados Unidos e cada nação.
Nos últimos meses, a imposição de tarifas foi adiada ou redefinida — até que foram, em agosto, impostas taxas específicas para países e setores e acrescentados ataques inaceitáveis à soberania de alguns Estados. O país que moldara o sistema comercial contemporâneo pós-Guerra Fria o desestruturou. Por quê?
Com os desmantelamentos da União Soviética e do bloco político de países que giravam em torno de Moscou, a década de 1990 se tornou um grande campo de testes para interações internacionais. Pela primeira vez em meio século, não havia mais um inimigo do “outro lado”.
Na atividade comercial, as possibilidades se expandiram. Durante a Guerra Fria, as trocas se restringiam, em grande medida, aos países do mesmo bloco político ou com os “não alinhados”. Historicamente, o comércio entre duas nações era mais uma forma de atividade diplomática. As regras para a compra e venda de produtos entre agentes dos países “A” e “B” eram definidas de acordo com um tratado bilateral entre ambos.
Isso criaria uma tendência de imposições de condições mais favoráveis aos países “mais fortes”. Contudo, na prática, em decorrência das circunstâncias da Guerra Fria, as superpotências buscavam manter os países do seu lado da Cortina de Ferro, além de atrair os não alinhados. Assim, havia uma autocontenção, evitando regras excessivamente duras.
Com a queda do Muro, o mundo poderia voltar a ter relações comerciais pré-guerra, sem o incentivo à autocontenção. Mas havia uma alternativa para a superpotência restante: os Estados Unidos. Impor as regras comerciais que lhe fossem mais confortáveis mediante princípios que fossem considerados universais. Se todos aceitassem voluntariamente as regras almejadas pelo país norte-americano, não seria necessário o desgaste da imposição bilateral. Dessa lógica nasce a Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995, que impõe restrições ao protecionismo seguindo a lógica liberal.
A percepção dos Estados Unidos em relação às práticas econômicas liberais, porém, mudou. A OMC foi paralisada por Trump em seu primeiro mandato, e tal situação foi mantida por Biden. Se este último queria correções na estrutura da OMC, a América de Trump não mais considera o liberalismo conveniente.
Num primeiro momento, pode-se entender as práticas comerciais dos Estados Unidos como uma volta ao período “sem regras” anterior à criação da OMC, mas também sem a autocontenção da Guerra Fria. Teríamos voltado ao mundo das práticas pré-Segunda Guerra Mundial.
Todavia, pode ser encontrado num período histórico mais distante um exemplo mais próximo do que Trump tenta fazer agora: o mercantilismo. Neste, as práticas comerciais dos países estavam inseridas num contexto maior — eram ferramentas contra países considerados adversários. E, numa lógica de soma-zero, todos são. É o uso do Comércio como arma de subjugação.
O governo Trump retorna a uma lógica comercial mercantilista. Mas de um mercantilismo arcaico. Não arcaico porque mercantilista, mas arcaico enquanto mercantilista.
No mercantilismo inicial, a ideia era garantir superávits com todos os países. No entanto, a ideia se sofisticou e, já na metade do século 17, pensadores como os britânicos Thomas Mun e Josiah Child já defendiam que o importante era o superávit total — ou seja, incorrer em déficits em algumas trocas pode ser benéfico para o superávit global. As medidas de Trump são de um mercantilismo que foi superado pelo próprio pensamento mercantilista.
Ignorar as lições da história não costuma dar resultado. As práticas mercantilistas arcaicas deram errado. Ademais, as trocas comerciais com base na força contribuíram para a tensão que levaria o mundo à maior conflagração de todos os tempos.
*Renato Galeno é cientista político e coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec-RJ.
O texto acima é fruto de uma parceria entre UM BRASIL e Ibmec. Clique aqui e saiba mais.

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