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“Partidos devem encorajar a promoção de novas lideranças e ideias”, diz Larry Diamond

DEBATEDORES | Larry Diamond

Embora a crença de que a democracia seja o sistema político que funcione da melhor maneira venha caindo no mundo, as pessoas não estão dispostas a trocá-la por um regime autoritário. Essa é a avaliação do sociólogo político e professor da Universidade de Stanford Larry Diamond. Em entrevista ao UM BRASIL, em parceria com o Instituto Atuação, Diamond diz que a queda na valorização da cultura democrática se deve ao fato de que as pessoas estão descontentes com o sistema em que vivem, em função de políticas que não atendem às suas reais necessidades.

“Isso reflete a realidade do mau desempenho da democracia, de ser um canal de polarização, de performance disfuncional e decepcionante. Isso reflete uma tendência verdadeira de crescente dúvida sobre a democracia em alguns círculos. Reflete alguma incerteza”, diz Diamond, que é um dos principais pensadores contemporâneos sobre esse sistema político no mundo.

“Reflete algum aumento de disposição em considerar alternativas autoritárias, o que é maior em algumas sociedades que em outras. Mas em nenhum desses países vemos algo próximo de uma maioria ou uma pluralidade de cidadãos dizendo que seria melhor ter um regime autoritário”, completa. Contudo, observando pesquisas que apontam queda em relação ao grau de satisfação com o regime democrático, o sociólogo avisa: “É um alerta de que não podemos contar para sempre com o comprometimento das pessoas com a democracia apenas pelo desejo de não viver sob um regime autoritário.”

Sobre o Brasil, o professor de Stanford diz que as crises econômica e política que o País atravessa não devem ser desperdiçadas, e que a sociedade tem uma nova chance de refletir sobre a maneira que se organiza. “Pode ser a hora, mais uma vez no Brasil, para as pessoas refletirem se o sistema presidencialista é realmente o melhor para cultivar a flexibilidade e a sustentabilidade democrática. Sei que uma transição para o sistema parlamentarista seria um grande choque e é muito improvável. Mas, considerando a história do Brasil nos últimos 30 anos de democracia restaurada, pode ser positiva uma reflexão sobre a estrutura constitucional, sobre a estrutura do sistema eleitoral e como seria possível atualizar as estruturas democráticas do Brasil para esses propósitos”, afirma Diamond.

De acordo com o sociólogo, os partidos políticos, mesmo que em um momento impopular como agora, ainda são essenciais para a democracia. Porém, ele diz que o sistema, para se fortalecer, deve promover espaço para novas lideranças. “Não estou seguro de que seja uma boa ideia para uma democracia permitir que um presidente retorne depois de servir, particularmente, dois mandatos. Nós temos agora um limite nos Estados Unidos: não são apenas dois mandatos consecutivos, são dois por toda a vida. Eu acho que é saudável, com o tempo, promover renovação e circulação de elites e o rejuvenescimento do sistema partidário. Acho que um sistema partidário em uma democracia pode ser mais saudável quando encoraja o cultivo e a promoção de novas lideranças e ideias”, ressalta o sociólogo.

Diamond também diz que a base educacional de uma sociedade deve ensinar os valores democráticos aos jovens, no sentido de promover a manutenção do sistema. “Estaremos em grandes apuros se não cultivarmos e afirmarmos para as novas gerações a necessidade do respeito mútuo, civilidade, comprometimento, certa abertura de pensamento, disposição para ouvir os outros e considerar pontos de vista alternativos. Isso é tão essencial à democracia liberal e equilibrada quanto o impulso individual de participar, se manifestar e impor seus interesses e valores”, diz o docente.

A entrevista foi realizada durante a passagem de Larry Diamond pelo País para o lançamento da 2ª Coletânea da Democracia, compilação de quatro obras internacionais organizadas pela Instituto Atuação que discutem o regime democrático, incluindo o seu livro “Para entender a Democracia”. O evento de lançamento foi realizado na sede da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), no dia 11 de maio.

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