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Distanciamento emocional aprofunda a dor do luto

DEBATEDORES | Ana Claudia Quintana Arantes

*Entrevista gravada em 12 de junho de 2020

A profundidade da dor pela morte de alguém amado revela o quanto havia de amor naquela relação. Não obstante, quem está em luto, enquanto tenta se reconstruir, ainda se vê tendo de impedir que a tristeza transpareça, em função do distanciamento emocional das outras pessoas – agravado, de certo modo, durante a pandemia de coronavírus –, de acordo com a médica geriatra e sócia-fundadora da Casa do Cuidar, Ana Claudia Quintana Arantes.

Em entrevista ao UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, ela explica que “quando perdemos alguém, temos a impressão de que a nossa vida foi embora” com a pessoa amada, de modo que o enlutado “perde o parâmetro em relação à sua própria importância no mundo.”

Além disso, Ana Claudia esclarece que quem está em luto espera que a sua dor seja reconhecida. Contudo, aponta que “as pessoas, quanto mais distanciadas emocionalmente, menos podem participar da reconstrução” de quem é atingido por uma perda – o que serve de paralelo para entender o fato de tantas pessoas continuarem saindo às ruas enquanto o País registra, dia após dia, um número elevado de mortes por covid-19.

“O massacre acaba sendo mais dolorido quanto maior a presença desse distanciamento emocional, do ‘não estou nem aí’”, assegura a médica.

A frieza em relação ao sofrimento alheio também se expressa na legislação, que concede ao enlutado três dias de licença do trabalho somente nos casos de morte de pai, mãe, marido, esposa e filhos – perda de irmão, por exemplo, não está incluída.

Especialista em Intervenções em Luto e Cuidados Paliativos – área da medicina que promove uma abordagem multidimensional para as pessoas com doenças que ameaçam a continuidade da vida –, Ana Claudia avalia que a sociedade, por ser movida a produção, não entendeu que quem está em luto não produz, além de condenar quem demonstra tristeza.

“Quem está enlutado se fecha, se recolhe, não consegue estar no mundo, porque ainda não sabe nem quem vai ser, porque acha que quem era se foi junto com a pessoa que morreu”, ressalta. “O processo de luto não é uma escolha, não é uma questão de maturidade emocional ou de habilidades cognitivas. O processo de luto é fundamentado na estrutura humana”, afirma.

Além disso, ela explica que a consequência da morte de alguém amado não se resume à tristeza. “Dos pontos de vista biológico e orgânico, você tem menor produção de todas as substâncias necessárias para o seu sistema imunológico funcionar bem; você tem, do ponto de vista cognitivo, uma queda de atenção, você vive mais tempo do lado de dentro, perto da sua dor, do que do lado de fora, então, aumenta-se o risco de acidentes.”

Em função das dificuldades impostas pela pandemia, Ana Claudia avalia que qualquer morte nesse período – por covid-19 ou qualquer outro motivo – é “desamparada afetivamente”. Com isso, ela deixa um recado às pessoas que estão vivenciando um processo de luto: “Se essa perda tem muita dor, é porque tinha muito amor. Se tinha muito amor, você precisa honrar essa história se reconstruindo. Não é justo para uma história de amor fazer a pessoa que fica ser o espelha da destruição”, destaca a médica.

“Ninguém sabe se há ou não vida depois da morte, mas o que sabemos é que vida depois da morte que existe de verdade é a vida da pessoa que fica. Se essa pessoa escolher honrar a sua memória, não aceitar que a sua morte tenha sido em vão, que a sua morte tenha sido algo sem valor na sua história, você pode morrer velho ou jovem, mas, se você é amado, você vai viver para sempre no coração das pessoas que te amaram”, conclui.

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