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A natureza sempre terá um vírus novo e sinistro à espreita

DEBATEDORES | Peter Kolchinsky

Embora o coronavírus não sofra tantas mutações como o vírus da gripe, é possível que, no futuro, seja necessário se vacinar anualmente contra o patógeno causador da doença respiratória covid-19, de acordo com Peter Kolchinsky, cientista e PhD em Virologia pela Universidade Harvard.

Em entrevista ao UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, Kolchinsky diz que, “sendo realista, só dentro de cerca de um ano” teremos uma vacina em larga escala contra o atual coronavírus – mesmo que seja desenvolvida antes disso, as primeiras doses devem ser direcionadas aos profissionais da área da saúde. Contudo, ele considera esse tempo de espera bastante positivo.

“Ter toda a indústria, todo o mundo, focado nesta única ameaça, e ter uma vacina disponibilizada dentro de um ano, é formidável. Mostra do que o mundo é capaz quando se dedica a um só problema em grupo”, destaca.

Invasor

O cientista explica que um vírus atua como se fosse um bandido invadindo uma cidade. Para contê-lo, o organismo precisa ter uma “foto” ou ter capturado um clone. A vacina da gripe é disponibilizada todos os anos porque o influenza passa por mutações continuamente, de modo que o organismo precisa ter a “foto mais atual” desse vírus para persegui-lo.

“É recomendado que todos tomem uma vacina para a gripe uma vez por ano e, como ela contém a foto mais atualizada dos bandidos da gripe, faz sentido incluir, no futuro, uma vacina para o coronavírus junto com a da gripe. Se as pessoas precisarem de vacinas de reforço para o SARS-2 todo ano, elas as receberão junto com as da gripe”, indica o virologista.

De acordo com Kolschinsky, como a última pandemia ocorreu há mais de cem anos – a gripe espanhola, na segunda metade da década de 1910 –, perdeu-se a “imunidade coletiva” contra a propagação de um vírus em escala global. Por isso, ele vê o atual surto de coronavírus como uma “vacina para toda a sociedade”.

“A natureza sempre terá um vírus novo e sinistro à espreita para nos vacinar contra essa complacência”, frisa. “[A atual pandemia] mudará o modo como pensaremos em investir em vacinas para gripes pandêmicas e no desenvolvimento de remédios para todos os tipos de coronavírus”, complementa.

Movimento antivacina

Enquanto bilhões de pessoas se resguardam em suas casas à espera da imunização, o virologista critica a organização de movimentos antivacina pelo mundo.

“Acredito que seja muito importante termos respeito pela verdade como ela é, mas sempre haverá aqueles que resistem à verdade, e enquanto eles tiverem amigos para lhes dizer que eles não são loucos, que eles podem acreditar que a Terra é plana, que o ser humano já conviveu com dinossauros, essas pessoas irão se reunir e apoiarão as crenças uns dos outros”, lamenta Kolchinsky.

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